Nas Margens

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    Auris Sousa

    Ana Julia

    JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 4 Foto 1

    Ana Julia brinca, corre. Está completamente solta pela ocupação, como um pipa que colore o céu. Parece feliz. Agnes se preocupa.   
    – Será? Será que você pode ficar brincando assim?   
    – Mãe tem um monte de gente por aqui que está cuidando de mim. “Deu uma sensação assim de ter um espaço onde tem segurança, onde cabe a minha filha, onde cabem as minhas questões”. A menina, de sete anos, parece ser a única a abalar as estruturas de Agnes, que às vezes perde as palavras quando o assunto é a filha.

    Foi aos 16 anos que Agnes se tornou teto de Ana e deixou a casa da mãe para morar com o namorado. O relacionamento era conturbado, as agressões verbais passaram a ser físicas. No oitavo mês de gestação, ele chutou sua barriga.  Foi o fim do relacionamento. 

    Em 2014, quando passou a viver na ocupação, tomou uma decisão difícil. “Foi a primeira vez na vida que a minha filha foi morar com o pai. Nesse processo, ele começou a fazer alienação parental, porque ele teve que ter o desgaste do cuidado, e por isso construiu toda uma criminalização em respeito à minha maternidade”.      
    A relação do casal é conflituosa, o ciclo de violência permanece. Agnes não está só. A sua tragédia é a tragédia nossa de cada dia. Só em 2014 a Central de Atendimento à Mulher, Ligue 180, registrou 52.957 denúncias de violência contra a mulher. Destas, 27.369 corresponderam a violência física e 16.846 a psicológica. O balanço também aponta que em mais de 80% dos casos, a violência foi cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo.
    Hoje, os dois estão com uma briga judicial, na qual ele conseguiu uma liminar que lhe concede a guarda provisória de Ana. “Recorri, continuo vendo a minha filha. Nem sei o que faria se fosse proibida de vê-la. Na liminar, consta que ‘a genitora que é atuante em movimentos sociais não está apta à execução de sua maternidade’. Isso é um absurdo”, conta revoltada. 
    A citação transformou a água mansa em ondas, daquelas que derrubam qualquer um e não deixa em pé nem mesmo o melhor surfista. E feito um tsunami de emoções ela descarregou sua angústia e fúria no Facebook: “Mas o que mesmo tem a ver a minha atuação enquanto mulher no espaço público a não execução da maternidade? É porque a mãe na cabeça conservadora continua sendo o “anjo do lar", que sacrifica toda sua vida, e suas questões básicas sem levar em consideração que o Estado e toda a sociedade também têm responsabilidade sobre o direito da criança, como é o caso do direito à educação que deve ser executada pelas creches. Assim como os direitos das mulheres!”

    Continua.

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