Jornalismo Literário na Veia

    Aqui, narrativas produzidas por alunos e ex alunos deste Curso de Pós-Graduação em JL, assim como notícias de seus projetos e iniciativas editoriais.  Também conteúdos extras de interesse do campo do JL.

    A voz dos mortos

    4

    Diego Moura

    Recomeço

    JL2015 Texto Site Diego Moura Capítulo 4 Foto 1

    Dias depois da morte de Rogério, Débora passou uma semana internada, sofrendo de profunda depressão. É difícil pensar nela assim, abatida, ainda mais para quem já a tinha visto em atuação num debate, batendo forte no Estado, na Polícia Militar, dentro da Faculdade de Direito do Largo São Francisco - onde o atual secretário de Segurança Pública dá aula - e na Câmara Municipal de Mogi das Cruzes, discutindo as chacinas acontecidas desde o começo do ano na cidade, ao lado de Lucimara, uma mãe que perdera o filho para policiais há sete meses.

    -      Nós não podemos deixar que o Estado aborte nossos filhos! - disse Débora, enquanto Lucimara enxugava o rosto com as costas da mão, silenciosa.

             Débora já estivera na posição de luto da mãe de Mogi. Porém, quando fazia cinco dias que trocara a casa pela cama do hospital, o filho morto apareceu para ela.

    -      Ele me arrancou da cama. Ele que me deu a guinada, para eu vir pra luta. Ele falou: "mãe, eu não quero a senhora aqui. Eu quero que a senhora vá pra luta, pra lutar pelos que estão vivos. Eu não volto mais. Não tenho mais jeito. Pra mim é só a justiça."

    E ela foi. Tomou coragem e procurou outras mães que também perderam os filhos no mesmo maio de 2006.

    -      Eles não vão viver alimentados com o meu medo - brada sempre que pode.

    Chegou na casa de Ednalva Santos, mãe de Marcos, um rapaz viciado em surf, assassinado por homens encapuzados no dia das mães. Em seguida, as duas bateram na porta de Vera de Freitas, cujo filho Mateus morrera ao lado de um amigo na pizzaria do bairro, no dia 17, nas mesmas circunstâncias do filho de Nalva. O medo deu lugar à luta por justiça, que logo contaminou Vera, uma senhora branca, de fala rápida e voz fina:

    A voz dos mortos

    5

    Diego Moura

    Mais vítimas

    JL2015 Texto Site Diego Moura Capítulo 5 Foto 1

    Mas a luta continua. No penúltimo sábado de agosto, Débora subiu a serra até Mogi das Cruzes. Lá, no bairro da Caputera buscou Lucimara dos Santos, mãe de Christian Silveira Filho, um dos mais de 30 mortos nas chacinas da cidade desde o ano passado até julho. Faz sete meses que Christian se foi. Ela ainda não conhecia as Mães de Maio.

    Infância e adolescência entre muros

    1

    Nathalia Maciel Corsi

    Jornalista, pós-graduanda no Curso de Pós-Gradação em Jornalismo Literário, epl, em São Paulo, turma 2015. Reside em Londrina, Paraná, onde está cursando Mestrado em Comunicação na Universidade Estadual de Londrina. natmcorsi@hotmail.com

    Foto: Nathalia Maciel Corsi / Desenho: Freepik

    Foto: Nathalia Maciel Corsi / Desenho: Freepik

    Na pacata Rua Eleonor Roosevelt há uma grande extensão de muros. Do lado direito, algumas casas e ruas que a cruzam. Do esquerdo, apenas muros. O respiro entre os paredões de concreto é um portão azul, sem grades, de ferro maciço. Nele, uma pequena abertura retangular convida quem está do lado de fora a tentar observar o interior. Ainda que, abaixando-se e aproximando o rosto, seja possível ver um quintal e uma casa amarela comprida o suficiente para comportar cinco janelas na lateral, não dá pra perceber a agitação que existe lá dentro.

    Infância e adolescência entre muros

    2

    Nathalia Maciel Corsi

    Da assistência coletiva ao olhar individualizado

    Conhecidas as barreiras da adoção, a preocupação se volta para a assistência e formação que os jovens recebem nas instituições de acolhimento. A juíza Camila Gutzlaff, da 1ª Vara da Infância e Juventude de Londrina, destaca que a estrutura oferecida pelos abrigos e pelo Município não é suficiente, por isso, aposta nos apadrinhamentos das mais diversas ordens (afetivo, financeiro, educacional e empresarial) como forma de melhorar a qualidade de vida dos que residem nesses lugares. “Estamos buscando parceiros que possam ajudar com uma aula de inglês, uma natação ou um curso profissionalizante”, exemplifica.

    Apesar da declarada missão de preparar para a vida adulta, a falta de um acompanhamento efetivo nos abrigos permite que adolescentes se envolvam com drogas, faltem às aulas, reprovem na escola, deixem de participar dos projetos em que estão inseridos e regridam quando estão próximos da maioridade por medo de enfrentar o mundo sozinhos. Sobre o apoio pós-abrigamento, a magistrada afirma que está mais difícil conseguir casas para os jovens, porque a maioria dos programas habitacionais está suspensa devido à recessão econômica do país. “O ideal seria que o Município e o Estado dessem condições para que eles saíssem dos abrigos com casa e emprego”, opina Camila. Atingindo a maioridade, acabam tendo que recorrer a parentes, que falharam no seu auxílio em etapas anteriores, ou a irmãos mais velhos que passaram pela mesma situação e encontram-se relativamente estruturados, tendo sido beneficiados por algum programa governamental. Alguns vão para o abrigo adulto.

    Infância e adolescência entre muros

    3

    Nathalia Maciel Corsi

    O destino dos bebês sem nome

    No saguão, há longos bancos de madeira, típicos bancos de praça, só que indiscutivelmente melhor conservados. Os bancos da esquerda estão dispostos quase de frente para os da direita, deixando um corredor ao centro, por onde passam as pessoas que chegam e precisam dirigir-se ao balcão de atendimento. As pessoas não chegam sós. Expectativas, ansiedades e idealizações são debruçadas sobre o guichê de uma maternidade pública paranaense.

    Em uma sexta-feira, às nove e trinta da manhã, a movimentação é pequena. Acomodadas nos bancos, três famílias aguardam. De frente uma para a outra, duas mulheres amparam seus bebês no colo. A da esquerda está acompanhada por duas crianças que parecem ter seis e oito anos. A da direita, ao lado do marido, ajeita o laçarote pink que enfeita uma frágil cabecinha, única parte para fora do embrulho feito com manta de algodão. Não deve demorar muito para que o outro casal que ali aguarda possa também ter o filho nos braços. A enorme barriga arredondada da moça torna visível a fase final da gravidez.

    Infância e adolescência entre muros

    4

    Nathalia Maciel Corsi

    As crianças reais e a sina dos adolescentes

    Marcela é uma das adolescentes que vão me receber no portão azul. Deve ter uns 14 anos. Sorri para mim, depois entra em uma das salas administrativas do abrigo e some de vista. Quando a encontro de novo, ela está chorando. Os cabelos presos em um rabo de cavalo deixam em evidência as bochechas naturalmente rosadas. Ela passa tímida, de cabeça baixa. Queria fazer uma carteirinha de estudante igual a dos colegas de escola, dessas com foto, que garantem desconto em cinemas e outros tipos de ingresso. Como resposta, foi explicado a ela que não havia necessidade, já que os passeios são sempre coletivos, organizados e custeados pelo abrigo. Não poder ter o mesmo que os outros adolescentes é o motivo do choro. Ficar de mal com os tios do abrigo não vai resolver a vontade de ser igual, mas é o que está ao alcance da menina que vive entre muros.

    Infância e adolescência entre muros

    5

    Nathalia Maciel Corsi

    O tempo inimigo

    Toda vez que abre o guarda-roupa e olha para a boneca Barbie, os bichinhos de pelúcia e os creminhos ali guardados, Tereza Rufino alimenta um pouquinho mais o sonho que sempre teve de ser mãe através da adoção. “É uma gravidez sem tempo determinado”, define. Habilitada há um ano, a pedagoga conta que a preparação começou muito antes de dar entrada ao processo. “Procurei me firmar no trabalho e ter a casa própria para garantir segurança à criança”. A casa com três quartos em que mora atualmente foi planejada em função da adoção. Solteira, ela cuida da mãe de 82 anos.

    A estrutura financeira e emocional já está pronta. Tereza já se sente mãe e espera ansiosa a chegada de uma menina em sua vida. Mais do que isso não dá para antecipar. As roupas, os sapatos, os brinquedos e outros itens necessários serão escolhidos junto com a dona deles. “Uma amiga minha adotou achando que ia encher a menina de brincos e vestidinhos, mas a menina odeia! A criança já vem com certa personalidade, tem que esperar para ver o que gosta, não adianta criar uma fantasia”. A imprevisibilidade também se dá por conta do perfil amplo. A idade da filha pode variar entre ume oito anos. Até pensava em abrir um pouco mais, mas antes de se habilitar decidiu visitar alguns abrigos e mudou de ideia.

    Infância e adolescência entre muros

    6

    Nathalia Maciel Corsi

    A rede guardiã: ações virtuais que desconstroem muros concretos

    JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 6 Foto 1 003

    Ellen Tomazeti e Celmara Mendes: presidente e vice do GAAAI.
    Foto: arquivo pessoal de Ellen Tomazeti.

    Passou o tempo em que a adoção era tabu, fazendo com que os pais escondessem a origem adotiva dos filhos. Hoje, as famíliasque buscam essa opção legal para se tornarem completas quebram muitas barreiras em nome do diálogo saudável sobre o tema. A adoção passou a ser entendida como uma maneira de constituir família, independentemente de estado civil, orientação sexual e raça. São vários os grupos que atuam promovendo discussões e respondendo a dúvidas de pessoas interessadas. Celmara Mendes e Ellen Tomazeti são exemplos de mães adotivas que se uniram para militar em benefício da causa. Juntas, as curitibanas fundaram o Grupo de Apoio à Adoção Amor Incondicional (GAAAI).

    Na região da capital, três outros grupos vieram antes. O Grupo de Apoio à Adoção Consciente (GAACO) é o mais antigo e trabalha fazendo a preparação dos habilitados. Nele é ministrado o curso obrigatório por lei e são organizadas reuniões mensais abertas ao público para difundir informações a respeito do processo de adoção. O Projeto Recriar atua preparando casais para apadrinhar os jovens abrigados. O Projeto Dindo, da mesma forma, tem como principal atividade instruir e acompanhar padrinhos afetivos. O GAAAI, de Celmara e Ellen, surgiu quando ambas passaram pelo processo de adoção e sentiram a ausência de um apoio focado no período pós-adoção.

    Infância e adolescência entre muros

    7

    Nathalia Maciel Corsi

    Um ato de amor recíproco: experiências de adoção tardia - parte 1

    JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 7 Foto 1 003

    Celmara e Eduardo com as filhas Ana Carolina e Silmara.
    Foto: arquivo pessoal de Celmara Mendes.

    Antes que o marido saísse para o turno seguinte de trabalho, Celmara serviu o almoço. A filha, Fernanda, estava na faculdade e avisou que não almoçaria com os dois. Sentado à mesa de frente para a esposa, entre uma garfada e outra, Eduardo tomou coragem para verbalizar algo que estava sendo preparado no coração do casal havia muito tempo.

    Pagina 2 de 4

    Contato

    • E-mail: ed.pl@terra.com.br
    • Phone: +55 (11) 2367 9397
    • Google+

    Newsletter

    Acompanhe novidades e informações de interesse sobre JL, narrativas da vida real e temas relacionados.

    © 2017 Edvaldo Pereira Lima. Todos os direitos reservados. Desenvolvido por Shift Mind