Jornalismo Literário em Seis Minutos

Aqui, uma mini-aula sobre JL num vídeo de uma palestra algum tempo atrás na ECA-USP. O conteúdo continua atual, exceto pela menção ao site TextoVivo, que não existe mais.

 




Memória do Futuro: Jornalismo Literário Avançado no Século XXI

Memória do Futuro: Jornalismo Literário Avançado no Século XXI

Partindo da análise de que o Jornalismo Literário encontra-se bem desenvolvido na tradição prática e bem mapeado no setor acadêmico quanto à sua tradição narrativa e ao entendimento da autonomia do autor, enquanto modalidade diferenciada do campo jornalístico, o autor lança as bases revisitadas de sua proposta conceitual/prática de um Jornalismo Literário Avançado. Busca cobrir proativamente um vazio, nessas duas frentes de ação, quanto à visão de mundo – moldada por modelos paradigmáticos – intrínseca às narrativas da modalidade. Apresenta as bases teórico/conceituais, sinaliza um histórico de iniciativas já realizadas nessa direção. Esta é a primeira parte de um artigo pleno dessa proposta.

A razão de ser deste trabalho, dividido em duas partes, é a formulação definitiva de uma proposta conceitual desenhada por este autor em momentos anteriores de sua carreira, aperfeiçoada por experiências realizadas de aspectos integrantes da mesma e pela introdução de conhecimentos Wcontribuintes atualizados, denominada Jornalismo Literário Avançado. Consiste numa atitude proativa de renovação do Jornalismo Literário, apoiada pela tradição armazenada dessa prática jornalística, bem como pelo saber acadêmico reunido ao longo do tempo, no país e no exterior, de um lado; pela compreensão de que a modalidade é dinâmica, tendo potencial intrínseco para adaptar-se a novas condições contextuais, à medida que a sociedade se transforma, impulsionada por avanços tecnológicos, mudanças de paradigmas e ascensão de novos valores, de outro lado.

O presente artigo, correspondente à primeira parte do texto total, abrange um mapeamento histórico, expõe bases teórico conceituais.

A justificativa para a proposta de um Jornalismo Literário Avançado consiste no entendimento de que três esferas de categorias de conteúdos conformam a prática e o conhecimento do Jornalismo Literário. A primeira categoria corresponde ao conjunto de princípios operativos e técnicas que diferenciam sua natureza, em comparação ao modelo convencional predominante de jornalismo. Aqui entram questões como os modos de captação da realidade – a observação participante, por exemplo, assim como a imersão a mais ampla possível do repórter/autor no universo temático definido por sua pauta –, os recursos narrativos – tais como a construção cena a cena, o ponto de vista autobiográfico em terceira pessoa – e os modos de e dição de matérias.

A segunda categoria centra-se no caráter autoral do Jornalismo Literário. A partir do rico conjunto de ferramentas disponíveis, o jornalista literário produz sua matéria com estilo próprio e voz autoral diferenciada. Ao contrário do jornalismo convencional de voz pasteurizada comum à maior parte da produção vigente na imprensa de grande circulação, no Literário prezam-se a individualidade estilística e a personalidade narrativa de quem produz o texto, entendendo-se sob essas expressões tanto o modo peculiar de linguagem textual do autor quanto a totalidade da sua maneira de reportar o real, incluindo-se seu modo de interação com os personagens efetivos da narrativa.

A terceira categoria tem a ver com a visão de mundo, o entendimento intrínseco e implícito a toda narrativa. Os textos do Jornalismo Literário carregam, inevitavelmente, o legado múltiplo dos paradigmas formais ou mesmo inconscientes que conformam o modo com que percebem, interagem com, captam e expressam o real. Nesse processo de comunicação entram em jogo crenças, valores, modelos de conhecimento pertencentes ao universo individual de cada autor, ao seu campo de prática profissional, à sociedade de sua época e lugar, às influências múltiplas procedentes das mais diversas fontes do mundo globalizado de nossos dias, numa dinâmica e complexa efervescência borbulhante dos inúmeros fatores que geram nossa construção simbólica do que entendemos por realidade.

Dessas três categorias, a primeira é a mais bem mapeada pelos estudos acadêmicos, tanto no Brasil quanto no exterior. A popularização desses estudos é exemplificada pelo trabalho seminal de Tom Wolfe, The New Journalism, que contou com o apoio de E. W. Johnson para lançarem em 1973 a edição original desse clássico, misto de considerações teóricas e antologia, cuja influência se espalharia por diversos países, a partir dos Estados Unidos, tendo provocado neste autor uma centelha fundamental de entusiasmo intelectual, quando bem jovem, ajudando a disparar sua identificação com o campo de pesquisa que se tornaria marcante na sua futura carreira acadêmica.

Contribuíram e contribuem para o conhecimento especializado nesse segmento outras obras clássicas, como Literary Journalism, editado por Norman Sims e Mark Kramer, com edição original de 1995 pelo selo Ballantine Books da Random House americana e canadense, assim como trabalhos menos conhecidos, talvez, mas igualmente relevantes, como Telling true stories, editado por Mark Kramer e Wendy Call, Writing for Story, de Jon Franklin e Matters of fact, de Daniel W. Lehman. Fora dos Estados Unidos, vale notar Escribiendo historias: el arte y el oficio de narrar en el periodismo, de Juan José Hoyos,na Colômbia.

A segunda categoria conta com abordagem menos volumosa, porém está presente de maneira mais visível, mesmo que não explicitamente atrelada ao Jornalismo Literário, em A Arte de tecer o presente de Cremilda Medina, por exemplo.

A terceira é a que menos tem despertado a abordagem dos estudiosos, sob uma ótica macro, embora aspectos específicos sejam abordados em trabalhos como Sob o nome de real: imaginários no jornalismo e no cotidiano, de Ana Taís Martins Portanova Barros e Maus pensamentos: os mistérios do mundo e a reportagem jornalística, de Dimas Antônio Künsch.

Em paralelo a essas categorias, já há uma respeitável tradição de estudos históricos do Jornalismo Literário, como exemplificam The Art of fact:a historical anthology of literary journalism, editado por Kevin Kerrane e Ben Yagoda, True stories: a century of literary journalism, de Norman Sims e A History of American literary journalism: the emergence of a modern narrative form, de John C. Hartsock. Noutra corrente, obras abrangem especialmente a segunda e a terceira dessas categorias, expondo, inclusive o caráter internacional do Jornalismo Literário, como faz Literary Journalism across the globe: journalistic traditions and transnational influences, editado por John S. Bak e Bill Reynolds. Esse livro é uma iniciativa da Association for Literary Journalism Studieswww.iajls.org -, entidade que reúne pesquisadores especializados de todo o mundo.

A terceira categoria é o pivô do foco neste artigo, por dois motivos principais.
A razão inicial é que algumas das abordagens existentes são de caráter reativo, fazendo um importante, mas específico trabalho de constatação da realidade instalada nos meios de produção jornalística, com análises significativas de conteúdos. Entendo, porém, que para benefício do Jornalismo Literário, é importante um trabalho proativo, que não se limite a constatar realidades, mas que avance na proposta de antecipar possibilidades, mapeando caminhos. A razão complementar é que já existe em desenvolvimento instalado iniciativa de amplo espectro na comunidade intelectual brasileira voltada a esse campo.

Base teórica inicial

A breve história deste processo é a seguinte:
No início da minha caminhada acadêmica, realizando um programa de Mestrado como estudante da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, incomodava-me constatar, através dos estudos em jornalismo, a prisão da atividade jornalística a paradigmas envelhecidos, pouco afeitos a propostas avançadas que surgiam noutras áreas de conhecimento. Soava-me inadequada a visão reducionista e materialista vigente, sustentada por uma leitura simplista da realidade.

No jornalismo, os alicerces conceituais procedentes da primeira metade do século XX, formulados por Otto Groth a partir do funcionalismo sociológico, apontavam como características dos periódicos os elementos atualidade, periodicidade, universalidade e difusão coletiva. Inquietava-me em particular a reduzida visão de tempo da atualidade, pois o dinamismo do mundo moderno parecia exigir do jornalismo outro horizonte temporal, mais elástico, que é a contemporaneidade. A universalidade também soava-me falaciosa, pois era óbvio localizar-se na cobertura jornalística uma limitação aos temas, valores e fontes ligadas às elites e centros dos poderes econômico, cultural e político. A leitura de mundo prendia-se a um viés racionalista, excessivamente cerebral e lógico, aos meus olhos, que traduzia no fundo um entendimento raso, simplista, da realidade.

A inquietude me conduziria a construir um primeiro patamar para o que no futuro iria denominar Jornalismo Literário Avançado: a produção da minha Dissertação de Mestrado como um modelo de abordagem teórica para o jornalismo baseado na Teoria Geral de Sistemas, formulada por Ludwig von Bertalanffy – principalmente – e outros. Esse trabalho seria publicado em livro, no México, com o título de El Periodismo impresso y la Teoría General de los Sistemas: un modelo didático.

Ao contrário do modelo predominante, contaminado pelos paradigmas do reducionismo, do mecanicismo e do materialismo, excessivamente estáticos e simplistas, o modelo sistêmico propõe uma visão integrada, dinâmica. Um dos seus corolários é que a soma das partes não é igual ao todo, como se apregoa na visão cartesiano/reducionista, mas que no conjunto surgem características diferenciadas, não presentes nos indivíduos isolados de um determinado grupo sob escrutínio. Outro é que os acontecimentos visíveis são fruto de um processo que se desencadeia muito antes de sua eclosão social, podendo contribuir para seu surgimento fatores e forças sutis, pouco explícitos ou até mesmo inteiramente ocultos a um olhar superficial e ligeiro.

A abordagem sistêmica mostrou-me então que a prisão ao fato – a ocorrência social manifestada – como pedra angular da ação jornalística só serve quando o objetivo é meramente registrar um acontecimento. Quando, porém, o propósito é estabelecer relações de causa e efeito, o olhar da mídia convencional só alcança a linha d`água onde se vê uma grande pedra de gelo flutuando, deixando de perceber a presença muito mais ameaçadora, à frente e submersa diante do Titanic, da enorme montanha marítima da qual faz parte, o iceberg.

Revelou-me que o foco isolado do jornalismo comum nos indivíduos da história deixa de localizar o contexto temporal, social e cultural do qual fazem parte, cujas ingerências diretas ou indiretas moldam as ações desses personagens. Indicou-me que o olhar temporal limitado à atualidade falha ao não se estender o suficientemente para trás, em busca das raízes dinâmicas dos fatos, muitas vezes escondidas em tempo distante, nem encontra sinais de seus desdobramentos futuros, por uma atitude conservadora, reativa, aprisionada no presente. Mostrou-me principalmente que a fragmentação do olhar, inerente à abordagem reducionista, faz o repórter perder a noção de conjunto dos fenômenos sociais e humanos, ficando portanto limitado ao alcance raquítico para uma compreensão mais apurada da realidade.

Desse trabalhou resultou então o primeiro alicerce teórico/conceitual para o que seria futuramente a proposta do Jornalismo Literário Avançado: a visão sistêmica.

Ora, se o Jornalismo Literário tem como propósito compreender a realidade – assim entendemos, enquanto cabe ao jornalismo noticioso convencional informar, simplesmente -, em lugar da leitura efêmera e rápida que faz a imprensa diária, e em lugar da explicação racionalista apressada ou opinativa presente na maior parte da produção jornalística convencional, cabe a essa modalidade afastar-se desse papel importante, mas limitado, indo ao encontro de sua própria missão nobre. Essa consiste em ler o real de maneira ampla, buscando contextos, evitando julgamentos (especialmente os apressados), caminhando para a conquista de discernimento amplo e pela elucidação dos acontecimentos e situações sociais sobre os quais debruça o seu olhar.

Não cabe ao Jornalismo Literário limitar-se, tampouco, à estreita ligação linear de causa-efeito que o melhor do jornalismo convencional procura estabelecer, à caça de explicações para o real. Louvável iniciativa da imprensa convencional, em alguns casos, mas insuficiente para o Jornalismo Literário, que ousa mais, embarca em horizontes intelectuais de maior envergadura.

As explicações são ainda processos intelectuais pobres para uma visão plena de realidade. Em pleno século XXI – assim como acontecia na última década do século XX, quando formulei o primeiro patamar da proposta Jornalismo Literário Avançado – essa afirmação pode ser encarada de forma mais categórica, pois avanços em diversos campos do conhecimento – especialmente na esfera científica – têm revolucionado nossa perspectiva de entendimento da realidade.

O jornalismo não é atividade isolada do restante do contexto cultural. Como mostra a abordagem sistêmica, é um sistema – isto é, conjunto integrado por partes componentes que operam dinamicamente – inserido num ambiente – os demais sistemas sociais, culturais, políticos, econômicos e de outra natureza eventual – com o qual se relaciona, do qual se alimenta e para o qual produz insumos que por sua vez provocam sua própria retroalimentação. Assim, o jornalismo pode – e tem realizado isso ao longo da história, mesmo que de maneira empírica, improvisada ou parcial – enriquecer-se intelectualmente com avanços do conhecimento, tanto na área científica quanto nos outros campos clássicos de compreensão da realidade desenvolvido pela civilização ao longo dos tempos.

No território específico do Jornalismo Literário, ilustra essa aproximação intercultural o fato de que no final do século XIX a nascente ciência da sociologia contribuiu para o aperfeiçoamento intelectual da modalidade também em sua fase de expansão inicial. Particularmente a chamada Escola de Chicago e o fato de tanto sociólogos quanto jornalistas praticarem narrativas do real voltadas ao retrato de tipos humanos e contextos grupais, assim como a situação de sociólogos da academia também escreverem para jornais – inclusive como repórteres – ou de jornalistas atuarem na academia, tudo isso gerou uma fermentação de aperfeiçoamento mútuo nessas duas frentes de expressão da realidade.

Disso resultou a incorporação da técnica de captação de realidade conhecida como observação participante, trazida dessa ciência. A essa influência, o Jornalismo Literário acrescentou na sua origem a contribuição peculiar proveniente de outra aproximação entre uma arte narrativa – no caso a literatura – e a sociologia, que é o realismo social. Derivada deste, por sua vez, está a escola literária do naturalismo, universalmente representada pela sua maior figura, Émile Zola. Essa vertente literária, mais a escola filosófica do positivismo, formaram o arsenal paradigmático com o qual Euclides da Cunha produziu seu fabuloso Os Sertões, trabalho que considero primeiro grande obra de Jornalismo Literário – em sua fase embrionária entre nós – brasileiro.

Se há essa tradição histórica de renovação do Jornalismo Literário pelo diálogo com outras áreas do saber, não haveria motivo para que eu refutasse o avanço de minha própria contribuição, proativamente, incorporando, a meu turno, propostas de ponta das fronteiras de vanguarda do conhecimento atual. Assim, à visão sistêmica, seguiu-se a absorção do conceito de complexidade, complementando-a, solidificando-a.

O olhar da mídia convencional é simplista, linear, raso, temporalmente frágil. O retrocesso temporal na busca de raízes antigas dos fenômenos sociais é tímido, assim como a postura reativa pouco avança para a consideração de desdobramentos ou consequências futuras de um acontecimento. As explicações tendem a ser mecanicistas, lineares, frágeis. Para mencionar uma situação na ordem do dia da cobertura massiva da mídia, quando escrevo este artigo, o caso de corrupção provável envolvendo o senador Demóstenes Torres é visto, na maioria dos veículos, como resultante de uma postura moralmente condenável do indivíduo, não como parte de um processo sistêmico altamente contaminado em que a alta política, os grandes negócios, os valores – ou falta deles, melhor colocando – individuais e o caráter – novamente, a falta de – das pessoas investidas de cargos públicos estão banhados por um câncer social endêmico bastante disseminado – em metástase social, digamos assim – nos últimos tempos, mas que parecem existir como praga neste país desde que a corte real portuguesa fugiu de Napoleão para se estabelecer no Rio de Janeiro.

A complexidade, tal qual definida por Edgar Morin, por exemplo, rejeita o paradigma da simplificação, avança para o entendimento de que tudo só pode ser compreendido tendo-se em mente a visão do todo, dos conjuntos organizados da realidade. Se o Jornalismo Literário pretende entregar aos receptores de sua mensagem uma leitura compreensiva do real, atualizada, em sintonia com os avanços mais importantes do conhecimento, precisa absorver essa contribuição.
Esse conceito implica em que a realidade – sobre a qual, em última instância, o Jornalismo Literário lança seus instrumentos de percepção – envolve dinamicamente diferentes níveis, ao mesmo tempo que exige distintos modelos de observação e entendimento. Ao contrário do paradigma simplificador, que se apoia no modelo da máquina – daí portanto o mecanicismo e a artificialização de tudo sob o olhar da imprensa convencional – para explicar tudo, o paradigma da complexidade considera a realidade um sistema natural, com distintas respostas aos diferentes desafios do seu ambiente. Assim, não se pode igualmente abordar narrativamente uma situação social como se aborda a descrição de uma linha de montagem na indústria automobilística, assim como não se consegue de fato aprofundar-se na compreensão do que levou um time de futebol à conquista da Copa do Mundo se considerarmos tudo como equivalente a uma máquina e seu funcionamento. Cada situação exige do observador – está implícito neste artigo que a tarefa do Jornalismo Literário reside em descrever a realidade da maneira a mais ampla, integrada e dinâmica possível – uma resposta intrinsecamente adequada ao que constata no sistema natural que observa, e não a reprodução de um modelo rígido, genericamente aplicado a qualquer coisa, seja a descrição de uma operação de trem no metrô de São Paulo, seja a relação entre as tempestades solares e a navegação aérea baseada em satélites no planeta Terra.

Do mesmo modo, não se quer um olhar preso aos fatos (que em si pouco representam quando a intenção é compreender um dinamismo integrado de forças em ação), mas sim uma percepção iluminada que relaciona os fatos a padrões de comportamento dos conjuntos sistêmicos sob observação.

Na proposta do Jornalismo Literário Avançado, o conceito de realidade é fundamental. Para compreendê-lo, as contribuições da visão sistêmica e do paradigma da complexidade aliam-se a outra fonte na qual fui buscar suporte: a física quântica. Apoiei-me num dos mais renomados de seus pesquisadores, David Bohm, para sugerir o aproveitamento de uma de suas formulações como baliza.

Para esse extraordinário cientista de visão – nascido nos Estados Unidos, onde desenvolveu sua carreira, mas chegando a atuar um tempo na Universidade de São Paulo como professor visitante -, a realidade não é constituída apenas pelo mundo objetivo, físico, visível e captável pelos sentidos comuns de percepção. O mundo físico é apenas uma das dimensões de realidade, a que Bohm denomina de ordem explícita. Há múltiplas dimensões do real, para Bohm, as demais enquadráveis sob a concepção de ordem implícita.

A essa abordagem seguem-se formulações igualmente ousadas por outros físicos quânticos popularizadores dos achados de sua ciência, transportando-os de fora dos laboratórios herméticos para o pátio aberto da sociedade como um todo, como fazem Fritjof Capra e Amit Goswami, por exemplo.

Essas abordagens, trazidas para o âmbito do Jornalismo Literário, conduziram a proposta da sua versão de fronteira para o terreno epistemológico da transdisciplinaridade, outra de suas bases. Essa proposta é a mais avançada e aberta da ciência, isenta da arrogância e da inteligência cega que durante muito tempo configuraram os paradigmas condutores do fazer científico. Concebe a ideia de que a realidade é muito ampla e complexa para o entendimento exclusivo sob os parâmetros científicos, que também possuem, obviamente, seus vieses e suas falácias de leitura. Daí define que a melhor postura para a compreensão do real consiste no diálogo em igual linha de importância da ciência, da arte, das tradições (isto é, dos conhecimentos não convencionais isentos dos parâmetros lógicos da cultura euro-centrada que marca a sociedade racionalista do nosso tempo na maioria dos países do mundo) e das religiões, essas consideradas não exclusivamente sob a ótica das organizações religiosas estruturadas institucionalmente, mas como sinônimos de sistemas que foram capazes de gerar leituras de mundo consideravelmente significativas.

O ideário do Jornalismo Literário Avançado prima, assim, por um desejo de abandono de qualquer leitura preconceituosa do real. Em lugar de se ater exclusivamente a um viés racionalista de compreensão, procura aquilatar as situações e acontecimentos em pauta sob um modo de entendimento que começa a partir dos seus personagens. Aliás, para essa modalidade narrativa de não ficção não existem fontes, mas sim personagens. As pessoas são personagens da vida real.

Mas o que é o ser humano? Em que plataforma reside o amparo do jornalismo para tratar as pessoas em suas matérias?

É fácil constatar que na maioria das vezes a visão é mecanicista, pouco dinâmica, reduzida a um aspecto apenas da vida do personagem contemplado na matéria jornalística. Quando muito, o enfoque apresenta um arremedo de entendimento – raso – longinquamente associado a um algum conceito psicanalítico. O indivíduo não é visto como um todo orgânico, complexo, mas como alguém geralmente limitado a um papel sócio único. Isso fica bem evidente nas matérias rotuladas de perfil, arremedo de formato narrativo nobre do Jornalismo Literário que, absorvido pela prática convencional, perde seu propósito. Geralmente centrado em celebridades, o perfil comum realça uma faceta social pela qual o personagem é conhecido, destacando trivialidades pouco significativas para se compreender aquele ser humano para além da máscara social específica em foco.

Ciente de que um dos fundamentos filosóficos do Jornalismo Literário é a humanização e que portanto o ser humano é o elemento central da totalidade quase absoluta das matérias, o Avançado não poderia ficar restrito a esse enfoque miseravelmente pobre do ser humano.

Por este motivo busquei aproximação à psicologia humanista, corrente mais avançada do que a psicanálise ortodoxa, ciente de sua natureza como formato moderno de compreensão do ser humano. Para além de seu uso terapêutico, a psicologia humanista é uma ciência aplicável em outras áreas da atividade humana, servindo de instrumento iluminador sobre a espécie humana e os indivíduos que a compõem.

Particularmente relevante nesse aspecto é a psicologia profunda, ou junguiana, movimento pioneiro, na psicologia humanista, iniciado pelo grande terapeuta e extraordinário homem de ciência Carl Gustav Jung. Associei-me a essa linha de pensamento, depois caminhando por outros campos para incluir no Jornalismo Literário Avançado uma premissa fundante, derivada daí e do trabalho pioneira da livre pensadora norte-americana Jean Houston: o ser humano é a uma criatura multidimensional que navega simultânea e interdependentemente por quatro oceanos integrados de realidade. Estes oceanos são o físico/objetivo, o psicológico, o simbólico e o espiritual.

Enquanto a imprensa cotidiana limita-se quase que exclusivamente ao universo físico das figuras humanas, o Jornalismo Literário Avançado tem a incumbência incumbência de buscar captar, tanto quanto possível, elementos significativas das diversas esferas dos fenômenos de existência que constituem o indivíduo. A física quântica – associada neste ponto ao estudo da psique, todo o arsenal do mundo interno da pessoa abordado pela psicologia – tem mostrado que a realidade objetiva é fruto de um processo dinâmico de manifestação que começa nos planos sutis – na ordem implícita de David Bohm -, tendo como ponto de passagem entre os planos o chamado campo de energia ponto zero. Assim, uma reportagem verdadeiramente séria de jornalismo esportivo não pode apontar a causa da vitória de um campeão olímpico como sendo apenas seu treinamento mais apurado dos que os competidores. Uma vitória importante no esporte – assim como na vida ou em qualquer outro patamar da sociedade – deve-se a um conjunto complexo de fatores, onde entram questões como a atitude mental do atleta, suas crenças e valores internos, as crenças coletivas e projeções dos grupos sociais interessados naquela modalidade, naquele profissional e na competição específica sob holofote da sociedade (e também portanto da mídia).

Jung nos trouxe o conceito de inconsciente coletivo. Ou seja, se queremos de fato colocar em contexto uma compreensão da vitória – ou derrota – marcante de alguém em qualquer frente de ação da vida, precisamos situar sua história no contexto do mundo coletivo inconsciente ao qual pertence. Quando olhamos o êxito estrondoso de algum atleta de esportes competitivos de popularidade massiva, é fácil ligar sua história à projeção ou interação coletiva que cria uma força multiplicadora invisível dos esforços rumo ao êxito. O atleta se identifica com a pátria, ou com um grupo social específico, ou pelo menos com a família de modo extremamente vigoroso, no sentido psicológico, extraído daí forças para superar obstáculos.

Trouxe-nos também a ideia revolucionária da sincronicidade, o princípio de que há relações significativas entre fatores externos (do mundo objetivo) e internos (do universo interno psíquico do indivíduo), dando sentido a episódios marcantes das histórias das pessoas. Deste modo, compreender os motivos da ascensão ao sucesso de uma nova pop star requer do jornalista/escritor subir seu raciocínio a uma plataforma de discernimento superior ao racionalismo preso aos aspectos lógicos, lineares e objetivos, pois é notável comprovar, nas histórias de vidas, a importância desses fatores sincrônicos, em muitos casos.

Os conceitos de sincronicidade e inconsciente coletivo, de Jung, são associados no Jornalismo Literário Avançado à radical proposta dos campos morfogenéticos, teoria formulada inicialmente na década de 1930, reposicionada com maior sucesso nas duas últimas décadas do século passado e até nossos dias pelo cientista inglês Rupert Sheldrake. Sistêmica e complexa por natureza, a teoria estabelece que a Natureza cria, armazena e dissemina conhecimentos novos entre membros de uma mesma espécie, fazendo navegar pelo inconsciente coletivo, no caso humano, conteúdos não verbais que representam saberes armazenados ao longo do tempo, distribuídos por canais sutis de comunicação – como o sonho e a sincronicidade – que atravessam barreiras tempo/espaciais.

Os campos morfogenéticos ajudam a entender, por exemplo, o papel dos rituais – fenômenos eminentemente subjetivos – em processos de ação coletiva que alteram condições sociais concretas. Pesquisas do Instituto de Ciências Noéticas – www.ions.org – e de outros centros de estudos científicos de vanguarda mostram a sugestiva relação entre grupos reunidos com o objetivo de gerar uma atmosfera psicológica de paz através de orações, rezas, meditações ou simples intenção e a diminuição de incidência de violências, num dado período, em uma grande cidade.

Posto está, implicitamente, então, que ao produzir perfis, ensaios pessoais, biografias e outros formatos narrativos que colocam em absoluto primeiro plano as histórias de pessoas, o Jornalismo Literário Avançado pode ousar transcender o nível raso reducionista das leituras corriqueiras, ascendendo voo para uma reconfiguração pública da compreensão do ser humano, representada pelas histórias de personagens famosos ou anônimos que fazem parte do seu repertório.

Esta compreensão amplia-se com a incorporação dos conceitos de evolução, consciência e níveis mentais integrados. O primeiro, abrigado pela leitura transdisciplinar, sugere que todos os seres humanos são impulsionados por um processo intrínseco de aperfeiçoamento e expansão da experiência do viver e do seu entendimento de si mesmos, assim como da realidade circundante. Esse processo, a seu turno, alia-se ao conceito de que somos dotados de consciência – noção de nós próprios, assim como de tudo o mais que existe e da relação dinâmica de interdependência entre tudo – e de que essa é pressionada pela dinâmica da vida a se expandir cada vez mais. A ideia de integração de níveis mentais múltiplos significa, de fato, a existência de consciência em diversas camadas da existência – e não somente no plano humano -, assim como da comunicação integrativa e interativa entre elas.

Do campo da psicologia junguiana extrai-se, ainda, os conceitos de ego, Self e individuação. Na verdade, diz a psicologia humanista, nós seres humanos não somos indivíduos plenos, no geral, pois somos geridos dinamicamente, no mundo psíquico, por muitos eus, muitas forças, muitos conteúdos inconscientes – na maioria – e alguns conscientes. Esses diversos eus têm pautas, propósitos e desejos variados, frequentemente conflitantes. Refletem também nossa luz – o conjunto de conteúdos psíquicos que aceitamos em nós próprios – e nossa sombra – o conteúdo oculto que abominamos, sem muita ciência deles próprios -, surgindo daí os conflitos motores do desenvolvimento da personalidade. E são os conflitos, claro, os motores das narrativas. No caso do Jornalismo Literário Avançado, porém, o nível de abordagem dos conflitos envolvendo os personagens ultrapassa o mundo objetivo, concreto, vê com igual valor os acontecimentos sutis em oposição, assim como a interação entre conteúdos dos dois mundos.

O que segura o mundo psíquico convulsionado em relativa ordem funcional é o ego. Organizador da psique, pode elucidar, numa matéria jornalística, o comportamento da celebridade bem-sucedida que, graças a um ego forte – isto é, à noção clara de auto identidade, propósito e habilidades – supera obstáculos para obter sucesso.

Tornando o panorama ainda mais complexo, contudo, a psicologia junguiana mostra que também temos outro centro organizador da barafunda interna de eus, o Self, cujo propósito pode ser radicalmente distinto do ego. Internamente então instala-se o conflito, dinâmica psíquica que pode iluminar a compreensão do grande drama interno dos seres humanos ao longo de suas histórias individuais, tramas que estão intimamente conectadas à ideia de evolução, meta sem fim visível que levaria à individuação, situação em que o ser conquista definitivamente um grau elevado de harmonia entre os seus conteúdos conflitantes internos, ampliando sua consciência de si mesmo, dos demais, da existência e do seu papel no jogo dinâmico da vida em todos os planos de manifestação.

Sob esse foco, um perfil em Jornalismo Literário Avançado transcende o plano meramente social das atuações externas dos personagens. Mergulha no universo interno onde transcorre uma história igualmente dramática e para a qual o escritor da vida real abre suas comportas de percepção, localizando o enredo e o tema em desenvolvimento interativo pelos níveis integrados de realidade.

Este é o escopo inicial do Jornalismo Literário Avançado.
Sua proposta de vanguarda não é apenas teórico- especulativa. Ao contrário, tem forte conotação prática, pois avanços efetivos já foram conquistados no Brasil com a incorporação de instrumentos aplicados que ajudam a transformar a teoria em prática. Essa história será objeto de um próximo artigo.

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Memória do Futuro: Jornalismo Literário Avançado no século XXI – 2

Memória do Futuro: Jornalismo Literário Avançado no século XXI – 2

Segunda parte de um artigo pleno da proposta conceitual do Jornalismo Literário Avançado, desenvolvida por este autor, o texto completa a apresentação de suas bases teórico/conceituais. O tom é de uma crônica histórico-acadêmica, pois associada a essa perspectiva, onde se aborda a questão epistemológica dos modelos de realidade que moldam o exercício da narrativa jornalística, há a menção ao histórico de iniciatvas de aplicação prática da proposta.

Igualmente são destacados o desenvolvimento do método de redação espontânea Escrita Total e a adaptação do método de estruturação de narrativas Jornada do Herói como partes integrantes importantes do JLA. Sugere-se igualmente desdobramentos futuros.

Inovações conceituais levadas à prática

A atitude básica que norteava minha ação acadêmica centrada em Jornalismo Literário consistia de um lado no resgate e mapeamento da tradição brasileira e internacional dessa modalidade narrativa de não ficção. De outro, dizia respeito ao desenvolvimento de propostas proativas que a renovassem, contribuindo para sua adaptação dinâmica a novos ambientes culturais resultantes da natural transformação que o tempo impõe às sociedades.

Parecia-me muito cômodo que grande parte da produção acadêmica universitária, especialmente na área de Humanas, se caracterizasse por uma atitude reativa, limitando-se a analisar situações já manifestadas no espaço social. Minha visão era baseada na ideia de que a produção acadêmica pode se libertar dessa dependência, centrando seu foco não no passado das realidades manifestadas, mas sim conduzindo-o para o futuro e para a co-construção da realidade possível. Igualmente, buscando a harmonia entre teoria e prática, parecia-me interessante que a academia gerasse conhecimento novo aplicável e o compartilhasse com a sociedade externa aos muros universitários, contribuindo assim, efetivamente, para o avanço das práticas profissionais.

Parecia-me evidente que em vários campos do conhecimento estava ocorrendo uma transformação acelerada de grande potencial revolucionário, do ponto de vista epistemológico. O conjunto de paradigmas formados pelos modelos mecanicistas, materialistas, cartesianos, reducionistas revelava-se cada vez menos hábil para expressar a realidade cada vez mais complexa da célere civilização de nosso tempo. Mas essa transformação não me parecia chegar ao jornalismo, nem mesmo ao Jornalismo Literário, ainda estacionado nos velhos paradigmas do século XIX.

Começou a interessar-me sobremaneira a transdisciplinaridade, proposta epistemológica tal qual expressa por expoentes internacionais como Edgar Morin e Basarab Nicolescu e aqui no Brasil por Ubiratan D´Ambrosio. O direcionamento dessa abordagem, colocando num mesmo plano de diálogo as ciências, as artes, a filosofia e as tradições soava-me muito bem. A fertilização mútua entre esses grandes campos de conhecimento atraía-me, parecendo cair como luva no árduo desafio de se ler o real através de lentes da complexidade, onde são muitos os fatores interativos que compõem processual e dinamicamente a realidade.

A importância disso é que, para mim, o jornalismo é um campo de conhecimento. Especialmente o Jornalismo Literário, que carrega implicitamente em sua razão de ser o propósito de expressar a realidade social tendo como fio condutor a figura humana. O bom praticante da modalidade é um pesquisador de nível comparável ao cientista social, no que se refere à reprodução dessa realidade social, e equivalente ao bom artista narrativo – o cineasta, o dramaturgo, o telenovelista, o romancista -, no que tange a arqueologia da alma humana. Mais do que uma simples reprodução referencial do real, o Jornalismo Literário está em busca da compreensão profunda, contextualizada do nosso mundo contemporâneo.

Diferenciando-o do cientista ou do artista, porém, o autor da modalidade tem sua especificidade. Faz seu trabalho de leitura investigativa mergulhando visceralmente no real. Vai a campo, observa, interage, capta o significado da rede de fatores e forças que configuram um momento e uma situação de realidade. Interpreta. E apresenta sua reprodução desse real de um modo narrativo peculiar. Tem a habilidade literária do bom escritor de ficção, mas adaptada à narrativa de não ficção ou ao ensaio de não ficção. À sua disposição, um arsenal de formas narrativas – o perfil, a reportagem temática, o texto de viagem ou de memórias, até mesmo a biografia – e o recurso muito peculiar do ensaio pessoal.

Na medida em que essa imersão no real tem como fio condutor o ser humano – é através de personagens reais, suas ações e seus mundos, que o autor conduz seu texto -, fica evidente que conhecê-lo bem é fundamental para o jornalista literário. Como, ao mesmo tempo, precisa investigar o real de frente e com intensidade, necessita depurar seus instrumentos de apreensão da realidade.

Até pouco tempo, havia um único instrumento dessa apreensão estimulado nos bancos universitários, geralmente, a abordagem puramente lógica, racional. Mas a pessoa humana, mostram os novos paradigmas, não é exclusivamente um pensador, como tentou nos fazer acreditar durante muito tempo o paradigma cartesiano rasteiro. Somos também seres emocionais e intuitivos, além de corporais e espirituais, arquetípicos e simbólicos. Paradoxalmente, em adendo, no intuito de melhor entender o outro, com o objetivo de melhor sobre ele escrever, o autor precisa simultaneamente mergulhar para dentro de si mesmo, ampliar o autoconhecimento, saber algo de sua psique, trazer consciência para o seu mundo interno e para o externo.

Segui, por isso, o caminho de procura de elementos das correntes que me pareciam mais arejadas e de vanguarda, na Psicologia, para incorporá-los como instrumentos de trabalho ao Jornalismo Literário Avançado, conforme abordado na primeira parte deste artigo, em edição anterior desta pubicação. À incorporação de conteúdos da Psicologia seguiu-se uma absorção de elementos da História. A abordagem histórica da realidade centra-se na questão do tempo e esse igualmente é relevante para o Jornalismo Literário, pois a busca da compreensão de significados passa pelo estabelecimento de conexões dinâmicas que se desdobram temporalmente. Se o propósito é lançar luzes de compreensão sobre fatos, situações e configurações sociais e humanas inseridas na dimensão temporal da contemporaneidade, torna-se saudável apoiar-se em conceitos que apontem de maneira mais sugestiva do que o racionalismo estreito da historiografia convencional ou do jornalismo raso possibilidades de relações significativas entre o presente e o passado.

Foi deste modo pertinente absorver o conceito de tempo do historiador francês Fernand Braudel, com sua categorização dos tempos de curta, média e longa duração. O primeiro refere-se ao tempo presente, dos indivíduos, dos acontecimentos atuais. É nele que mergulha o jornalista literário à caça do entendimento da realidade, espelhando a situação que encontra através dos seus personagens reais. Sobre eles, porém, incidem forças concomitantes de média duração, correspondentes à temporalidade de existência de grupos sociais e valores culturais que ultrapassam o tempo de vida de indivíduos, perdurando por décadas, mesmo séculos; a sucessão no poder de membros de diversas gerações de uma mesma dinastia monárquica condiciona de algum modo a realidade de uma nação por muito tempo e muito além do que a duração de uma vida individual específica sob escrutínio de um historiador. E incidem as condições de longa duração, correspondentes especialmente à conformação geográfica do espaço contextual onde vivem os personagens da história; se o jornalista literário busca compreender um andino de hoje residente nas altas montanhas do Peru, tem de prestar atenção nos possíveis efeitos dos Andes na formação do temperamento do indivíduo, alguns desses efeitos podendo ser iguais aos provocados em seus antepassados de cem anos atrás, mesmo que agora tenha acesso à internet e ao telefone celular.

O método de Braudel alia tempo ao espaço e história a ritmos. Alia também a mentalidades. Quer dizer, propõe integrar fatores objetivos e subjetivos, encarar o evento histórico como associado a um dinamismo complexo.

Para o jornalista literário, significa descobrir, no personagem sob seu olhar, a existência, no nivel psíquico, de conteúdos de realidade que procedem de diferentes dimensões temporais; significa descobrir que por trás da fachada moderna de um Fernando Collor de Mello na história recente da República, cosmopolita e antenado com o mundo, habitava um arcaico coronel dos tempos feudais do Brasil colônia, cuja primeira ação ao chegar ao mais alto cargo do poder político neste país foi cometer o execrável desatino anti-democrático de congelar os fundos financeiros de milhões de brasileiros, especuladores e aposentados igualmente afetados em proporções que provocaram dramas e tragédias humanas inesquecíveis.

A contribuição seguinte do campo historiográfico foi a incorporação do conceito de história imediata. Diz respeito à história que se desdobra no presente, cujo alcance e cujo significado talvez não se possa compreender totalmente ainda, mas se pode vislumbrar sinais relevantes. Como o jornalista literário está atrás da profundidade de compreensão, evitando permanecer aprisionado na superfície rasteira dos fatos noticiosos diários, é conveniente habituar-se a pensar de um modo distinto, lançando sobre o presente questionamentos que o permitam detetar não simplesmente fatos num evento presente, mas sim padrões processuais de movimentos dinâmicos que lhe dêem um sentido de maior alcance temporal para dos acontecimentos e das situações cotidianas.

Outro complemento dessa abordagem, cuja raíz mais antiga se atribui também à mesma corrente historiográfica francesa que originaria o trabalho proeminente de Fernand Braudel, é conceder importância à história de anônimos. Ao contrário da historiografia clássica, muito focada nas elites, a corrente da história imediata coloca em primeiro plano também as classes socialmente periféricas. Naturalmente, essas duas contribuições – a de educação do pensamento para um olhar temporalmente mais elástico sobre o presente, a de se dar atenção a figuras humanas socialmente distantes dos centros elitistas de uma sociedade -, essencialmente não estranhas ao jornalismo, ajudam a enriquecer, mesmo assim, a postura que convém formar a base conceitual do jornalista literário.

A terceira e última contribuição estimulada a partir da historiografia consistiu num diálogo metodológico com a história oral. O que me movia era analisar que procedimentos metodológicos dessa corrente histórica poderiam ser úteis ao Jornalismo Literário Avançado e, em contrapartida, que conteúdos nossos, de método, poderiam ser úteis aos nossos colegas historiadores, num intercâmbio mutuamente nutritivo. Estudos preliminares, especialmente calcados em obras de Ecléa Bosi e Paul Thompson, fizeram-me estimular alunos e orientandos jornalistas a cursarem disciplinas de pós-graduação em história oral para examinarem detidamente esse terreno de um diálogo possível.

Um dos resultados consistentes foi a orientação da Tese de Doutorado de Alex Criado, Falares: A Oralidade Como Elemento Construtor da Grande-Reportagem, defendida na Universidade de São Paulo em 2006. Dali veio uma certa atitude de se utilizar a oralidade mais substancialmente como um recurso narrativo possível para o jornalista literário, mas dentro de um contexto de edição estilística que julgamos mais dinâmico, criativo e eficiente do que o padrão normalmente utilizado em história oral.

Essas contribuições, procedentes da Psicologia e da História, preenchiam complementarmente uma parte do quadro em construção do Jornalismo Literário Avançado. Mas não eram suficientes. Faltava um mergulho mais diretamente direcionado ao âmago de um lago epistemológico que era o confronto com abordagens essencialmente voltadas ao cerne do conceito de realidade. E esse cerne remeteria inevitalmente à questão adicional da consciência e essa, por sua vez, ao princípio da evolução.

A principal porta de acesso a essas duas questões foi a física quântica, e mais apropriadamente ainda o entendimento metafórico de alguns dos seus princípios de aplicação universal, conforme apresentados na parte anterior do artigo.

O JLA incorpora esses e outros princípios surgidos desse trançar de avanços formidáveis em distintas áreas de saberes. O que deve guiar o raciocínio do jornalista literário ao examinar uma relação de causa e efeito entre fatos de um acontecimento, por exemplo, não pode ser mais o determinismo cego do princípio da certeza estabelecido pela agora limitada física newtoniana, mas sim o princípio da incerteza da física quântica. Não trabalha mais com a certeza falsa que os paradigmas convencionais vendem como verdadeira, mas sim procura familiarizar-se com o princípio da probabilidade.

A ciência antiga, convencional, arrogantemente declara que conhecidos os dados de uma determinada realidade no passado, sabe prever exatamente como se repitirá no futuro. Mas o pensamento probabilístico não se limita a esse raciocíno pobre e potencialmente enviesado; aceita a ideia da extrema criatividade probabilística do universo ao gerar acontecimentos. Além do mais, não se apoia na relação linear e reduzida de causa e efeito, mas sim procura o campo processual de relações sistêmicas e complexas que ajudam a compreender um acontecimento, uma situação, um comportamento humano.

Essa abordagem abriu espaço, no JLA, para se procurar, na cobertura interpretativa do real, não apenas os elementos factuais de um acontecimento. Os fatos registram uma ocorrência, mas não ajudam a entendê-lo. O significado das coisas não está na sua realidade material, concreta, mas no simbolismo sutil que damos a elas. Assim, foi possível a este autor orientar também na USP a Dissertação de Mestrado de Ana Taís Portanova Barros, A Função Mágica no Fazer Jornalístico: Um Estudo de Caso, em 2001, que apontou o quanto do conteúdo simbólico é desprezado pelo jornalismo cotidiano, mas o quanto desse conteúdo está presente em boa parte da população leitora que, de fato, pode ler o real com muito mais acuidade – pois naturalmente complexa e orgânica – do que a ótica reduzida ao racional estreito utilizada pela maior parte da imprensa cotidiana. A Dissertação seria posteriormente publicada em formato de livro.

Os avanços progressivos que essas incorporações ao ideário do JLA proporcionaram foram notáveis, mas ainda assim insuficientes para o horizonte que este autor vislumbrava. Uma questão emergente é que essa absorção de conhecimento epistemológico de vanguarda trazia como contribuição complementar uma constatação que crescia com evidências empíricas: a realidade é também coconstrução individual e coletiva, para ela contribuimos consciente ou inconscientemente.

A interferência do pensamento, da mente humana e da mente coletiva (ideia associada ao conceito de inconsciente coletivo de Jung, por exemplo) sobre a realidade objetiva tem sido estudada nos últimos anos por pesquisadores de vanguarda. Rupert Sheldrake, da teoria dos campos morfogenéticos, por exemplo, tem sugerido como o ritual coletivo das orações pode, de fato, provocar resultados verificáveis quando esses procedimentos são direcionados em benefício de alguém doente. Um número cada vez maior de experimentos têm demonstrado como, de fato, a mente direcionada propositalmente a um objetivo focalizado pode interferir de algum modo na concretização de resultados visíveis.

Os relatos de experimentos pioneiros dessa espécie levaram este autor a levantar casos, na literatura científica de vanguarda, como a produzida pelo Instituto de Ciências Noéticas – www.ions.org -, de novos procedimentos neurológicos aplicados a situações específicas de melhoria do desempenho humano. A exploração especulativa de novas possibilidades que poderiam ser acrescidas ao escopo do JLA o levaram a travar contato com a teoria dos hemisférios cerebrais e depois com o conceito de neuroplasticidade.

A primeira tem a ver com o estudo da lateralidade cerebral, ou da especialização funcional dos hemisférios cerbrais, que levou Roger Sperry a ser um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia de 1981. A segunda mostra a extrema versatilidade do cerébro humano a responder a estímulos e desafios e a se adaptar flexivemente a novas circunstâncias, mesmo quando há problemas de perda neural por doença, acidente ou outro fator, como o envelhecimento. A ciência acreditava, até um certo momento recente, que as células cerebrais não se renovavam, ao contrário de outras células do corpo. Por isso, a perda de memória não tinha retorno, por exemplo. Hoje já se sabe que sim, as células nervosas podem se renovar.

O que essa ciência de ponta foi demonstrado é que mediante estímulos adequados – como o contar histórias, o ouvir boa música, o fazer determinados exercícios físicos estimulam a recuperação de capacidade mental perdida e antecipam favoravelmente a resposta do indivíduo no aprendizado de novos novos domínios ou na melhoria do desempenho.

Narrativa e cocriação da realidade

Para que serviria isto no JLA?
Primeiro, para se constituir, simplesmente, num campo temático de pautas interessantíssimas, potencialmente alinhadas a uma função nobre que o JLA pode desempenhar: contribuir para a cocriação de uma realidade social e humana melhor, mais saudável do que a que temos hoje, mais condizente com as probabilidades de melhoria da qualidade de vida que esses estudos de ponta sugerem. Segundo, para nutrir os jornalistas literários com uma fonte de recursos, procedimentos e princípios que os permitam produzir narrativas e ensaios com um alto poder de expressão avançada, compatível com essa visão nova de mundo que está emergindo nas fronteiras de vanguarda do saber humano.

O propósito da cocriação está alinhado com a ideia de que parcialmente, que seja, podemos interferir na realidade externa a partir do uso consciente de intenções desenhadas mentalmente.

Essa ideia está alinhada ao conceito transdisciplinar do princípio da evolução. Simplificando, os indivíduos e a coletividade humana são movidos por um impulso inerente, instalado nas entranhas de seus seres pela própria Natureza, de evoluirem. Isto é, de ganharem graus de consciência cada vez maior de si mesmos, dos outros, do entorno, das relações dinâmicas estabelecidas entre todos os elementos da existência. O impulso da evolução contrapõe-se a outra polaridade interna, dos indivíduos, que é o de involuirem, de se estagnarem no processo de ampliação de consciência.

Essa expansão de consciência estaria atrelada às visões de mundo, aos parâmetros de realidade, às crenças e às verdades que o indivíduo e os grupos humanos abrigam. Esse abrigar, por sua vez, tem muito a ver com aquilo que o indivíduo e os grupos sociais internalizam, absorvendo os conceitos implícitos de realidade que circulam no ambiente cultural de sua época, de sua sociedade, de seu mundo. Boa parte desses modelos implícitos de realidade são distribuídos pelos meios de comunicação de massa convencionais e, hoje em dia, igualmente pela mídia social.

Isso quer dizer que, no âmbito do JLA, é mandatório o praticante ter pelo menos uma certa noção de que o ato comunicativo público provoca potencialmente algum efeito na mente individual do receptor e na mente coletiva dos receptores da mensagem. Adaptando para nossa área estudos do efeito da literatura sobre o leitor, realizados no passado por Dante Moreira Leite sob a ótica da psicologia, pode-se compreender como a mensagem gerada pela arte literária pode dispor ao disparo de um pensamento destrutivo no leitor, quando o enquadramento da questão abordada pela peça literária que a transporta – um romance, digamos – chega a um impasse sem solução, um dilema angustiante. Ao contrário, quando o romance aborda uma questão mas apresenta pelo menos algum sinal de solução ao problema básico ou ao conflito que transporta a trama da obra, gera o pensamento produtivo.

Ora, na maior parte da imprensa cotidiana – e hoje em dia na maior parte da mídia jornalística digital também – a predominância de mensagens centradas em conteúdos negativistas, estressantes, distorcidamente valorizadores da crueldade humana, dos desacertos da vida e das mazelas da sociedade, além de transportadoras de valores consumistas consumistas superficiais e alienantes, é absurda.

Não sejamos ingênuos. As mensagens que chegam ao campo sutil do inconsciente coletivo, se produzidas tão intensamente e massivamente, tão frequente e avassaladoramente portadoras de conteúdos repetidamente negativistas, estão transportando uma visão de mundo que contribui para influenciar negativamente mentes alheias, reduzindo o escopo de percepção da realidade dos receptores. Involuntariamente ou não, estão a serviço da manutenção do patamar de consciência das pessoas e de grupos sociais num nível bem reduzido. Isto é, estão produzindo preferencialmente pensamento destrutivo e portanto estão a serviço da involução, não da alavancagem do pensamento humano em direção à conquista de um grau mais elevado de compreensão do real. Estão deixando as pessoas com a sensação de impotência, tirando-lhes o poder inerente à sua qualidade humana de superação de limites e desenvolvimento efetivo como seres potencialmente integrais, sistêmicos, plenos.

Evidentemente não se trata de advogar que a mídia não deva produzir matérias de denúncia, por exemplo, nem de exposição das desgraças humanas. Esse conteúdo tem a sua função importante a desempenhar. O problema, porém, é no exagero excessivo e avassalador da mídia em transportar mensagens de conteúdo negativista, revelando pouca boa vontade para expressar conteúdos opostos, transformadores, capazes de abrir horizontes e iluminar portais da percepção para novos entendimentos, gerando assim pensamentos positivos e portanto contribuindo para a ampliação de consciência de indivíduos e grupos sociais, auxiliando na cocriação de um ambiente social e humano mais compatível com o estágio potencial de evolução que a humanidade é capaz de atingir no presente.

Assim, o JLA adota um propósito de contribuir para gerar, sempre que possível, preferencialmente narrativas e ensaios sintonizados com a ideia de transformação. Particularmente, esposa um conceito de narrativas de transformação, querendo-se dizer com isto a produção de textos sobre a vida real que navegam pelos princípios transdisciplinares abordados neste artigo e que vão além da mera constatação e relato de problemas, como faz a imprensa que ainda se vê como guardiã da sociedade apenas, buscando além deles focalizar soluções possíveis ou exemplos motivadores. Quando não pode almejar tanto, pelo menos tira a estranheza do leitor para com o diferente, o outro e o desconhecido, pelo simples fato de produzir narrativas honestas, de sincero desejo de descoberta e entendimento das realidades sociais e humanas. O JLA evita o julgamento fácil e barato, passa ao largo de querer explicar as coisas, ou de deitar pseudo verdades sobre o mundo. Simplesmente mostra a realidade sob uma ótica a mais ampla e integrada possível, costura com honestidade sua busca de compreensão.

Modestamente, que seja, esse ideário não ficou limitado apenas ao território teórico dos conceitos. É propósito deste pesquisador, na sua qualidade de docente, sempre contribuir para aliar a teoria à prática. Assim, de uma maneira estruturada, em seu período de exercício regular da docência na USP – hoje está aposentado da instituição, continua a atividade docente noutro sistema – pôde coordenar a produção de dois livros-reportagem coletivos, com seus alunos, empregando experimentalmente a aplicação do JLA.

O primeiro, O Tao Entre Nós, expôs casos pioneiros de uso de novos paradigmas transformadores em diferentes setores da atividade humana. O segundo, Econautas, abordou a questão ecológica.

Depois, quando somou esforços para junto com três outros profissionais – Celso Falaschi, Sergio Vilas-Boas, Rodrigo Stucchi – para cofundarem a Academia Brasileira de Jornalismo Literário e em seguida estabelecerem o primeiro programa brasileiro de pós-graduação lato sensu nesse campo, tornando-se docente e diretor pedagógico do mesmo, continuando assim dez anos depois, mesmo após a extinção da ABJL, pôde introduzir a proposta do JLA e estimular que os alunos aproveitassem e aplicassem, como lhes fosse possível, a prática dessa vertente de vanguarda.

Dois passos arrojados e uma breve reflexão de futuro

As iniciativas experimentais expostas até aqui formaram parte do corpo conceitual inicial do JLA, mas com o tempo esse corpo seria acrescido de dois novos aportes essenciais.
O primeiro nasceu quase por acaso, sem nenhuma intenção explícita de incorporá-lo à proposta. Foi mais, inicialmente, uma resposta a uma necessidade prosaica.

Acontece que nas minhas aulas de graduação na ECA ou mesmo nas de pós-graduação, trabalhando Jornalismo Literário, os estudantes geralmente tinham uma admiração pela modalidade. Quem as fazia por opção é porque, de fato, nutriam uma paixão por essa vertente jornalística ou por ela se encantavam, durante o curso.

Como, no entanto, minha abordagem não se limitava ao conteúdo teórico, exigindo dos alunos a condução dos conceitos e técnicas apreendidos à prática, fui constatando um certo obstáculo.

É que quase todos os alunos, jornalistas profissionais em sua maioria, estavam condicionados pela prática esquemática da produção de textos convencionais do padrão mais comum na mídia: os noticiosos, muitas vezes configurados no velho formato do lead e da pirâmide invertida. A prática do Jornalismo Literário exige naturalmente um estilo de texto mais solto, melhor elaborado, mais sofisticado, do ponto de vista propriamente literário. Mas estavam aprisionados pelo hábito, não conseguiam produzir narrativas condizentes com o estilo da modalidade.

A matriz de texto básico no jornalismo noticioso diário é o sumário. O autor resume os fatos e os relata para o leitor. No Jornalismo Literário, a matriz fundamental é a cena. Em lugar de relatar à distância os fatos para o leitor, o autor o lança diretamente no fogo dos acontecimentos, no meio do cenário real onde tudo se dá, na interação vívida com os personagens reais. Em lugar de falar a respeito, mostra. O texto é visual, cinematográfico, sensório, sensual, colorido, sonoro, aromatizado. Quem é praticante do sumário há algum tempo e cotidianamente pode se sentir travado ao tentar escrever uma cena.Percebi que precisava fazer algo para liberar esse potencial, pois senão todo o esfoço de estimular a prática do Jornalismo Literário seria em vão.

Valendo-me da condição de pesquisador atento à emergência de novas propostas conceituais e práticas nas áreas que me interessavam e da atuação profissional paralela como jornalista que me possibilitava frequentes viagens internacionais atuava na USP como professor de tempo parcial por opção, o que me permitia conciliar a atividade docente com uma carreira externa -, descobri que os avanços científicos do conhecimento sobre o cérebro humano derivados da Teoria dos Hemisférios Cerebrais tinham resultado em aplicações na área do esporte, da medicina e do desenvolvimento da criatividade. A base de tudo era o conceito de que, estimulado devidamente – no geral de forma lúdica ou visual, o cérebro seria capaz de preparar o indivíduo para melhorar o desempenho em qualquer área da atividade humana que fosse ou de ajudá-lo a transformar realidades indesejáveis rumo a estados favoráveis.

No esporte, por exemplo, a Universidade do Texas experimentava melhorar o desempenho de atletas olímpicos através de exercícios que estimulavam o cérebro a gerar um estado compatível com isto. Na medicina, a Universidade McGill, no Canadá, estimulava os pacientes em recuperação de cirurgia a acelerarem o processo de melhora mediante fantasias mentais dirigidas.

O princípio comum às duas situações é que através da imaginação lúdica e vívida se pode “convencer” o cérebro a aceitar como real uma situação que ainda é apenas projeção de possibilidade. Se o cérebro a aceita, dispara sistemicamente o processo interno que pode de fato concretizar o estado desejado. A imaginação é traduzida visualmente e lançada numa tela mental interna que o indivíduo projeta pela fantasia dirigida como existente numa área atrás da sua testa, dentro da cabeça. Trata-se da técnica da visualização criativa. Os atletas se viam imaginariamente correndo uma prova no melhor da sua condição física, psicológica e mental, por exemplo.

O paciente em convalescença se via lá fora ao sol jogando golge num lindo cenário de verde, em lugar de prostrado na cama de hospital.

Percebeu-se que produzia resultados, transformava realidades, em alguma medida e em muitos casos.

Descobri também o mapa mental, uma criação do psicólogo inglês Tony Buzan que é uma forma de expressar graficamente de maneira lúdica e espontânea os processos mentais de associação de ideias, imaginação e flexibilidade característicos do ato criativo.

E finalmente me deparei com propostas pioneiras, nos Estados Unidos, de métodos de escrita livre ou de escrita criativa. Os métodos apontavam para um procedimento totalmente diferente de estimular o desenvolvimento da capacidade de escrita e produção de textos das pessoas, quando comparados aos procedimentos tradicionais de ensino de redação. Incorporavam alguns desses princípios associados a novos paradigmas, traziam técnicas que traduziam objetivos idealizados em caminhos práticos de desenvolvimento. Uma das técnicas era o escrita rápida, que consiste na produção livre e veloz de textos, sem preocupação com as regras gramaticais, nem com os formatos tradicionais de coerência e lógica de construção de texto.

Fui experimentando esses métodos, aparando arestas, introduzindo técnicas trazidas de outras áreas, criando procedimentos novos, ajustando possibilidades. Experimentei aplicar o mapa mental à redação de textos, assim como fui associando a visualização criativa a uma série de exercícios que criava. Combinando essas três técnicas como os artifícios-mães de todo o processo, direcionado a despertar no indivíduo de dentro para fora seu potencial para escrever, criando várias outros procedimentos e técnicas, acabei por desenvolver o meu próprio método, batizando-o de EscritaTotal, método de redação espontânea em português.

Aplicando-o no contexto da produção de textos de Jornalismo Literário, percebi que cumpria o papel desejado de destravar os alunos ou pelo menos funcionava como bengala de apoio que disparava favoravelmente esse processo. O método foi sendo ampliado, testado, adaptado e desenvolvido gradativamente desde a década de 1990, até que o julguei ter atingido um bom nível de qualidade e eficiência, a ponto de configurá-lo num livro publicado com o mesmo título em 2009. Já era então uma ferramenta intelectual tanto independente, aplicável em outras circunstâncias, quanto um componente da proposta do Jornalismo Literário Avançado.

Aberta a trilha de destravamento da escrita de textos, debrucei-me então sobre outro desafio. No Jornalismo Literário produzem-se muitas vezes narrativas longas. Demandam, naturalmente, compilação, interpretação e tratamento de uma quantidade muito grande de dados, informações, análises, observações de campo, entrevistas, documentos. O autor tem uma história para contar e essa exige arquitetar e estruturar a profusão de elementos da narrativa de uma maneira coerente, ao mesmo tempo sedutora e cadenciada. Por outro lado, ao se debruçar sobre a realidade, o autor precisa pensá-la narrativamente, encaixá-la de um modo que faça sentido. Como organizar essa interpretação narrativa e como expo-la num texto de boa qualidade para o receptor da mensagem?

Numa dessas viagens internacionais, deparei-me com o livro A Jornada do Escritor , de Chris topher Vogler, um consultor de Hollywood que desenvolvera um método para analisar roteiros de cinema. O autor também apontava como alguns grandes cineastas, como Steven Spielberg e George Lucas, usavam o mesmo método para estruturar suas narrativas cinematográficas. Essa abordagem, que se revelava eficiente, resultava em parte de um livro acadêmico lançado em 1947 pelo mitólogo norte-americano Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces, e em parte dos estudos de Carl Gustav Jung. O método, então, estava sendo apresentado com o nome de A Jornada do Herói.

Embora Vogler o apresentasse como um instrumento intelectual à serviço do cinema de ficção, usado inclusive nas animações do Estúdio Disney como o famoso O Rei Leão, vislumbrei de imediato que poderia ser aplicado, com algum ajuste, à narrativa de histórias de vida, no Jornalismo Literário Avançado. Unindo a abordagem desse autor ao estudo seminal de Campbell e ao conhecimento que já tinha da psicologia junguiana, foi possível ajustar o método tanto à interpretação e análise de histórias reais, quanto à estruturação das narrativas que as contavam.

O método se adequava muito bem à proposta do Jornalismo Literário Avançado de narrar histórias fortemente centradas em seres humanos e com o intuito de compreensão profunda, complexa, dos processo dinâmicos que configuram a realidade social, assim como a das pessoas.

Algum tempo depois em que já compartilhava essa abordagem com os alunos da pós-graduação e já esboçava o quadro completo da proposta do Jornalismo Literário Avançado, onde a Jornada do Herói se encaixava perfeitamente, Monica Martinez, então minha orientanda de Doutorado, revelou-se profundamente interessada nos estudos mitológicos de Campbell. Propôs desenvolver uma Tese que fosse um experimento de aplicação da Jornada no ensino de jornalismo, junto a alunos de graduação. Daí nasceu seu trabalho, Jornada do Herói – A Estrutura Narrativa Mítica na Construção de Histórias de Vida em Jornalismo, Tese defendida em 2002, posteriormente publicada em livro com o mesmo título.

Os aportes de Campbell, Jung e Vogler combinam-se bem no contexto do Jornalismo Literário Avançado por se constituirem em um guia confiável de interpretação das vidas humanas sob uma ótica da complexidade e dessa integração dinâmica entre fatores objetivos e sutis. Trazem a dimensão psicológica de leitura, acrescentam a mítica e arquetípica. Ampliam a lente de percepção e compreensão de significados, auxiliam o autor a identificar o sentido dinâmico das vidas e das histórias.

Esta é, pois, uma crônica histórico-acadêmica do desenvolvimento da proposta conceitual do Jornalismo Literário Avançado, assim como uma apresentação do que é e do que a constitui. A proposta como arcabouço teórico-conceitual e prático está configurada há algum tempo, assim como sua aplicação prática já teve alguns experimentos no âmbito acadêmico e uso em projetos culturais fora da academia, tal como uma narrativa biográfica recente escrita por este autor, programada para ser publicada em livro no primeiro semestre de 2014.

Contudo, há muito o que fazer pela frente. Enquanto este seu criador e autor continua a empregá-la principalmente em seus projetos narrativo biográficos fora da academia, no ambiente universitário novas gerações de pesquisadores podem conhecer a proposta, testá-la, experimentá-la e eventualmente ampliá-la.

O fato é que, quando desenhada na década de 1990, a proposta encontrava pouco eco até mesmo pelo distanciamento cultural de muitos profissionais e estudiosos do jornalismo, com relação a essas abordagens epistemológicas de vanguarda. Agora, a caminho da metade da segunda década do século XXI, causam menos estranheza. Mesmo assim, ainda falta muito para a comunidade jornalística empenhar-se em conhecê-las de maneira substancial.

É preciso que isso aconteça, à medida que a força das transformações sociais e culturais empurrem o jornalismo para se deparar com esse novo quadro conceitual já presente não mais nas ilhas de vanguarda apenas, mas também no terreno cotidiano de algumas áreas da atividade humana, como a psicologia, o esporte de alta performance, a educação de ponta. Seria triste o jornalismo não assumir uma posição proativa, adiantando-se às demandas, renovando-se, garantindo sua posição de destaque na sociedade em rápida ebulição de transformação.
A aposta, aqui, é para que este espaço diferenciado do campo jornalístico, o Jornalismo Literário, faça a sua parte, renovando-se. O Jornalismo Literário Avançado é uma oferta proativa nessa direção.

Referências

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BRAUDEL, Fernand. Escritos Sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 2013 (terceira edição).
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