Andréa Ascenção conquista – novamente! – prêmio nacional de Jornalismo Literário

EDVALDO PEREIRA LIMA – PUBLICADO EM 07/09/2018

Andréa levou pela segunda vez Prêmio Clovis Barbosa, em Manaus (Foto: Arquivo pessoal)

Pós-graduada em Jornalismo Literário – e das mais brilhantes entre todos os participantes do Curso de Pós JL em seus 12 anos de existência –, Andréa Ascenção conquista – pela segunda vez! – esse importante prêmio nacional de JL.

Parabéns, Andréa!

 

Em suas próprias palavras:

 

“No início do ano escrevi uma reportagem sobre profissões que estão desaparecendo para a Revista Sentido, da também ex-aluna da Pós JL, Sibele Oliveira. Um dos personagens era um ex-domador de animais de circo. No final rendeu tanto que acabamos tirando esse personagem para equilibrar o texto. Como estava inédito, enviei para aquela premiação literária de Manaus. Ganhei o Prêmio Clovis Barbosa, destinado ao Melhor Texto de Jornalismo Literário deste ano!

Uma nova oportunidade de colocar em prática as lições que aprendi na Pós. Mais uma vez, muito obrigada, Mestre!

Era um dos personagens de uma reportagem sobre profissões que estão desaparecendo. Mas a história de um ex-domador de animais de circo descortinou um universo complexo. Se por um lado a profissão e o próprio circo estão longe das manchetes de hoje, por outro, a questão que mudou o rumo dessa tradição é pauta constante: até onde vai o direito dos animais? Acabei tecendo um emaranhado de conflitos que não cabiam mais no freela encomendado. Guardei-os. Dias depois abriram as inscrições para os Prêmios Literários da Cidade de Manaus. Inscrevi a reportagem ‘Efeitos Colaterais da Evolução’ na categoria nacional, destinada ao melhor texto de jornalismo literário.

Saiu o resultado! Pela segunda vez ganhei o Prêmio Clovis Barbosa. A primeira vez foi em 2014, pelo perfil ‘O homem da Segunda Chance‘, fruto do trabalho apresentado no primeiro semestre do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, epl, sob orientação do Mestre Edvaldo Pereira Lima.

A reportagem premiada permanece inédita, como pré-requisito para concorrer ao prêmio. Por ser um texto de grande fôlego pode, facilmente, render um livro. Independente da formatação que encontre para ela, o reconhecimento da comissão julgadora do Conselho Municipal de Cultura da Cidade de Manaus é um grande incentivo para continuar a produção de Jornalismo Literário.”




“Nem Sapo Muito Menos Príncipe” – Entrevista na Rádio Jovem Pan

Em entrevista ao programa “Radioatividade”,  apresentado por Madeleine Lacsko e Carlo Aros na Rádio Jovem Pan AM de São Paulo, dia 01 de julho de 2016, Edvaldo Pereira Lima e o dr. João Borzino falam do livro  Nem Sapo Muito Menos Príncipe, assinado por ambos, publicado pela plataforma editorial  Clube de Autores. Uma conversa envolvente de um tema pouco discutido abertamente em público.

 




Nas Margens

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Auris Sousa

Jornalista, pós-graduanda no Curso de Pós-Graduação em JL, epl, turma 2015. Trabalha na redação do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região e é repórter freelancer. Acredita no jornalismo literário como ferramenta de transformação social.
auris_sousa@hotmail.com

Agnes Karoline é feito água que corre. Escava as terras por onde passa para formar leito. Tem momentos que corre por meio de terrenos mais duros, compostos de rochas. Mas nem por isso seca. A cada curva se renova, e fortalece suas margens.

JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 1 Foto 1

O frio e o calor, o sol e as nuvens oscilam em Osasco. É 29 de maio de 2015, uma sexta-feira, “Dia Nacional de Lutas e Manifestações” contra a ampliação da terceirização, em tramitação no Congresso, e o ajuste fiscal, mecanismo adotado pelo governo federal para cortar gastos e elevar a arrecadação. Na cidade do cachorro quente, sindicatos ligados as centrais sindicais e o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), que também reivindica o início da terceira fase do programa Minha Casa, Minha Vida, participam do ato.

Franzina. Olhar desconfiado, e profundo. Agnes usa um curtíssimo rabo de cavalo, veste calça legging preta, e uma malha roxa, com flores coloridas, desbotada com as indesejáveis bolinhas brancas. Em cima do caminhão de som, sua fragilidade e força gritam. Com o microfone na mão direita, fala: “Houve uma redução fiscal e quem vai pagar pela redução fiscal não são os bancos, são os trabalhadores. Então, a gente é contra essa redução. E ainda, a gente tem uma coisa para falar para o [ministro da Fazenda, Joaquim] Levy”, acentua ainda mais a voz, faz gestos decididos com os punhos: “Se ele quer fazer redução, que ele vá taxar os grandes proprietários de terras, os grandes proprietários do país e não os trabalhadores”.

Aos 24 anos, Agnes já sabe bem o que é retirada de direitos. Filha de dona Simone, nasceu mulher, nasceu sem pai. Nasceu sem casa, nasceu sem teto. Nasceu sem privilégios, nasceu pobre. Nascer assim traz marcas profundas, traz a exclusão, ainda mais numa sociedade construída por rótulos. E para quem nasce assim, existem duas opções: lutar diariamente contra o processo de exclusão, ou se render a ele.

Sua vida é marcada por mudanças. Morou em alguns bairros de Itaquera, Zona Leste de São Paulo, de aluguel ou de favor, como a vez que dividiu o apartamento da avó com mais três famílias. “A minha infância inteira e minha adolescência foi se mudando de casa. Sou filha de mãe solteira, que tem mais quatro filhos. Então, ela não conseguia pagar o aluguel e se mudava de casa. Desde aí eu já sou sem teto, já me identifico com o que é ser sem-teto”.

No Brasil, tem milhões de brasileiros nestas mesmas condições, não conseguem pagar os aluguéis ou acessar as faixas de financiamento habitacional pelos mecanismos formais. Entretanto, o tamanho desta batalha ninguém vê, ela é quase invisível até mesmo nas estatísticas. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), por exemplo, ainda não tem números que retratam este perfil de gente. Mas essa gente existe. O MTST estima que “mais de 50 milhões de brasileiros não tem sequer moradia digna”. O dado pode estar próximo do real. Pode estar próximo da gente.

É 17 de fevereiro de 2014, uma noite de terça-feira como outra qualquer, se não fossem as tragédias da vida. Agnes está numa lotação sentido à Itaquera, vem da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), campus de Guarulhos. Já está próxima de seu destino, casa de sua mãe, quando percebe uma aglomeração. Que absurdo. O que está acontecendo?

– O que está acontecendo?

– A polícia… a tropa de choque tá chegando

– Gente, como assim? A tropa de choque está chegando, por quê?

– Porquê a agente ocupou, porquê a gente quer moradia. Eles vão mandar a tropa de choque, eles vão entrar.

– Calma! A tropa de choque não pode vir assim.

Trata-se de uma reintegração de posse do conjunto habitacional Caraguatatuba, em Itaquera, formado por 49 prédios, pertencentes ao programa Minha Casa, Minha Vida, da Caixa Econômica Federal. O local está ocupado por cerca de 940 famílias desde 25 de julho de 2013. Uma decisão da 13ª Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo, expedida em agosto do mesmo ano, indica que a habitação deve ser devolvida à Caixa.

Em 2013 e 2014, as ocupações de terras, prédios, e atos por habitação se acentuaram em todos os estados, em decorrência da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Num país onde faltam moradia, direitos básicos, como saneamento, segurança, saúde e educação, nem todos conseguem assistir aos preparativos para o Mundial com bandeirinhas nas mãos, e cantarolar “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, sem saber onde vai dormir, e o que vai comer. Para essa gente, perder de 7 a 1 já é rotina.

Agnes não volta para casa da mãe, fica na ocupação. Percebe que os moradores não estão organizados com Movimentos e busca ajuda. Conhece o MTST, identifica-se e se une a ele.

A decisão não agrada dona Simone. Diferente da filha, ela não se enxerga como sem-teto. Não aprova ocupações. “Minha mãe…é bem contra, ela não aceita”.

Continua.

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Nas Margens

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Auris Sousa

Identidade Fortalecida

É maio de 2014, Agnes se inunda de esperança, de força. É noite, uma nova ocupação começa a nascer num terreno em Itaquera, a Copa do Povo. As marteladas soam como se fossem o início de uma história, e os sem-teto trabalham como formigas para que no dia seguinte o terreno já esteja com um novo visual. As ocupações são as escolas da revolução. Natalia – uma das coordenadoras do MTS – tem razão. Só então, entende o “que é Marx, o que é luta de classes”.

JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 2 Foto 1

Enquanto a luta de classes e Karl Marx não saem de sua cabeça, as mãos entram em conflito com a pá e a enxada. Finca as madeiras na terra, estende a lona. De repente tudo desmorona. Recebe ajuda. “A ocupação é uma zona autônoma que problematiza a sociedade, mas não problematiza com textos, livros, nada disso, problematiza com a prática da ocupação. O primeiro momento é a desconstrução de várias coisas, inclusive de uma subjetividade que é aquela subjetividade do indivíduo que luta sozinho, que come sozinho, que tem que pagar as contas sozinho. Desconstrói a consciência do sujeito construída pelo capitalismo”, explica.

O Movimento permaneceu na Copa do Povo por cinco meses, e saiu em setembro com a promessa de que os ocupantes poderão voltar depois que um conjunto habitacional for construído no lugar. Passado um ano, as obras ainda não começaram, não há vida, o terreno continua vazio e Agnes no aluguel. A luta não para.

É madrugada de 27 de setembro de 2014. Outra ocupação acontece, a Carlos Marighella – nome deliberado em assembleia -, num bairro nobre de Carapicuíba, Granja Viana. Agnes é a coordenadora principal. Ao todo, 400 famílias apostam na ação como uma alternativa para a tão sonhada casa própria. Os vizinhos reclamam. A ronda policial se faz presente.

“Eles fizeram processo de terrorismo. Entravam no terreno, atiravam para o alto e falavam que era gente de dentro da ocupação que estava atirando. Não chegaram a derrubar os barracos, mas um dia me colocaram no barracão [espécie de cozinha improvisada], mostraram que estavam com armas”. Agnes refaz o diálogo:

– Você sabe quem foi o Marighella?

– Eu sei!

Carlos Marighella foi um dos maiores símbolos da luta política contra a ditadura militar. Nos anos de chumbo, foi perseguido, preso e torturado. Morreu em 4 de novembro de 1969, assassinado a tiros numa emboscada policial.

– Você tem coragem de fazer o que ele fez?

– Agora a gente vive num momento diferente do qual o Marighella viveu. Mas eu tenho coragem, de acordo com o contexto, de fazer o que for necessário para garantir a democracia.

Agnes também é rio bravo. Diante das tempestades, inunda-se de coragem e força. “Nunca pensei em desistir. Pelo contrário, nos momentos em que isso acontecia, eu não saia de perto da ocupação. Isso deu mais força. O importante de estar organizado é que você não está sozinho, você tem mais força, você percebe que é possível resistir”.

O local foi deixado em dezembro, após uma negociação entre o Movimento, a prefeitura da cidade e o dono do terreno. O combinado era que mais tarde aquele pedaço de terra passaria a ser propriedade das famílias, quando ocorresse a construção de moradias populares. Isso ainda não aconteceu.  Assembleias e atos são realizados para que o acordo saia logo do papel.

É 26 de agosto, mais uma manifestação está prestes a acontecer. A concentração é na Praça das Bandeiras, em Carapicuíba. O sol começa a se despedir, já passa das 17h. Dezenas de pessoas esperam por Agnes. Sento-me no murinho de um chafariz sem água junto de mais três pessoas, que conversam com um senhor que está em pé.

Uma mulher de pele clara, cabelos cacheados, fala que só faltou num encontro do Movimento. Ao seu lado direito está um homem de estatura baixa, pele clara, nariz afinado e óculos de armação fina, calado, só escuta. De seu lado esquerdo uma senhora negra de colo farto, cabelos crespos, presta atenção. Em sua frente, o senhor, de bermuda clara, camiseta branca, barba sem fazer, cabelos grisalhos, e desdentado afirma que compareceu em todos os encontros.

– Qual é a pauta do ato de hoje?

– Vamos para Câmara dos Deputados. Você faz parte do Movimento?

– Não. Sou jornalista. Vim conversar com a Agnes.

– Ah, ela ainda não chegou.
– Sou Francisca. Estou no Movimento desde o começo da ocupação [Carlos Marighella]. Este aqui é meu marido, – coloca as mãos no homem que está ao seu lado.

Abre uma pasta esverdeada, retira documentos, que carregam pesos de provas. São os comprovantes de inscrições de programas de habitação feitos na cidade, mas para Francisca é muito mais que isso: são tesouros, que podem lhe garantir um pedaço de terra. “Já fiz três. No primeiro, há 19 anos, fui sorteada, mas não estava presente, perdi. Minha amiga viu tudo, ela também foi sorteada, já mora nos predinhos. Quando fui atrás da minha unidade, a prefeitura disse que eu não tinha sido sorteada”, conta indignada.

A piauiense não perde a esperança. Os filhos já cresceram. Os netos chegaram, e nada da casa própria. Mora numa casa de aluguel, com dois cômodos, que acomodam o marido, os filhos, o genro e os netos. “Somando tudo são dez pessoas morando no mesmo lugar. Eu procurei fazer tudo de forma correta. Agora entrei no Movimento, e tenho fé em Deus que vai dar tudo certo. Vou conseguir pegar a unidade que é minha por direito, porque fui sorteada. O que sair pela ocupação vai ficar pra minha filha”.

Continua.

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Nas Margens

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Auris Sousa

Se o governo não faz, o povo faz

São quase 18h, o céu já começa a escurecer. Agnes chega à concentração para o ato. Com um sorriso no rosto, mochila nas costas, ela anda para todos os lados da praça, fala com as pessoas. Bem no centro, um rapaz negro estende uma faixa vermelha, que leva o rosto de Carlos Marighella, seu nome, o logo do MTST, e a frase “Não temos tempo para ter medo”. Agnes grita: “MTST”. Os demais completam: “a luta é pra valer” e rodeiam a jovem coordenadora. Um pouco rouca e sem microfone, ela propõe que todos repitam os seus dizeres. De forma sincronizada, o seu pedido é atendido e o recado é passado: “Hoje a ocupação Carlos Marighella. Hoje a ocupação Carlos Marighella. Vai sair em ato da Praça Central e vai até a Câmara. Vai sair em ato da Praça Central e vai até a Câmara”.

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Numa espécie de eco, provocado pelas repetições, o comunicado segue: “Porque queremos que a nossa moradia saia já. Não podemos esperar que o poder púbico faça as coisas no tempo dele. Nós sabemos que já tem gente nossa que foi direto na Câmara, sem isso ser combinado. Luta tem que ser unida, uma voz só, um formigueiro, porque nós temos que ser coerentes. Pé na luta!”, finaliza Agnes com o punho direito estendido para cima.      

Agnes se posiciona em frente à faixa vermelha, que é segurada por homens e mulheres, e guia cerca de 300 pessoas até a Câmara. No caminho, a multidão para o trânsito e canta: “pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro”. As buzinas de carros, motos e ônibus também se juntam a cantoria.
Livre, a pequena multidão ocupa as principais ruas da cidade. O ato reivindica que a prefeitura aprove uma emenda ao Plano Diretor de Carapicuíba que contenha a demanda da ocupação no projeto de moradia.
Os militantes chegam à Câmara. As portas já estão fechadas. O guarda avisa que os vereados já foram embora. Assustado, o vereador “Vera Verão”, um homem alto, negro, de cabelos crespos até os ombros, vê a multidão, abraça uma pasta preta contra o peito e sai de fininho. A imagem não chama a atenção dos manifestantes, que estão frustrados com o desencontro. Agnes está com o rosto colado na porta de vidro, tenta enxergar algo. Fala ao celular, coloca o aparelho no bolso.

– Geeente, o Abraão [Júnior, presidente da Câmara] disse que podemos fazer o que quisermos que ele não vai vim nos receber. Agora vamos colocar em votação o que devemos fazer.

A maioria decide voltar num outro dia, sem data determinada. “Nós vamos voltar. Se os vereadores não receberem a gente de novo, nós vamos parar Carapicuíba. Mas nãão vai ser só a gente nããão, o MSTS em peso estará aqui”, berra Agnes.

Continua.

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