Infância e adolescência entre muros 4

Infância e adolescência entre muros

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Nathalia Maciel Corsi

As crianças reais e a sina dos adolescentes

Marcela é uma das adolescentes que vão me receber no portão azul. Deve ter uns 14 anos. Sorri para mim, depois entra em uma das salas administrativas do abrigo e some de vista. Quando a encontro de novo, ela está chorando. Os cabelos presos em um rabo de cavalo deixam em evidência as bochechas naturalmente rosadas. Ela passa tímida, de cabeça baixa. Queria fazer uma carteirinha de estudante igual a dos colegas de escola, dessas com foto, que garantem desconto em cinemas e outros tipos de ingresso. Como resposta, foi explicado a ela que não havia necessidade, já que os passeios são sempre coletivos, organizados e custeados pelo abrigo. Não poder ter o mesmo que os outros adolescentes é o motivo do choro. Ficar de mal com os tios do abrigo não vai resolver a vontade de ser igual, mas é o que está ao alcance da menina que vive entre muros.

Maíra tem um sorriso fácil, largo e dos mais sinceros. A garotinha tem uma beleza singular. É índia e tem Síndrome de Down. O cabelinho de franjinha, igualzinho ao da Tainá, do filme. Tem dois aninhos. Conforme a mãe social, Sueli, desdobra-se entre os cuidados com todos a quem auxilia, Maíra dá passinhos apressados atrás, murmurando MÃ…. MÃ…. MÃ, sua forma de dizer mãe. Ela vai atrás de quem lhe dê carinho. Quando o tio Paulo adentra em sua casa, ela imediatamente pede colo. É um colo agarrado, como os coalas filhotes fazem com os coalas pais. Depois de alguns segundos de abraço, Paulo tenta colocá-la de volta ao chão, mas ela resiste, se pendurando nele e emitindo um som de criança nervosa, como se dissesse não. Ele a mantêm no colo e ela solta de novo o sorriso porque conseguiu o que queria.

Enquanto isso, Sueli está penteando os cabelos encaracolados da branquinha Renata, que recém saiu do banho. “Ela está nervosa, hoje, não sei por quê. Tá dando de gritar. Até já dei o banho, que é pra ela refrescar um pouco”. Renata é portadora de necessidades especiais. Gosta de ir à sala de Fátima, uma das funcionárias do abrigo, porque lá ela pode mexer no computador. Sueli é quem empurra a cadeira de rodas até lá. Só que desta vez Fátima teve que ir a uma reunião e a sala ficou fechada. Talvez seja esse o motivo da irritação.

Luca mora na casa lar ao lado. Ao me ver, grita de longe OI, TIA LINDA! Depois, corre para descobrir: “O que você tá fazendo aqui?”. “Vim fazer uma visita”. Para cada resposta, uma nova pergunta. Curioso, nenhuma explicação dada parece deixá-lo satisfeito. Quer saber os por quês de tudo. Até que se cansa do interrogatório e volta a brincar com outras crianças. O molequinho de cabelo castanho liso está no auge de seus sete ou oito anos. Serelepe e desinibido, age como líder da turminha.

Com nove meses de idade, Iuri é o caçula do lar. Está pronto para a adoção, mas 15 pretendentes já foram consultados pela Vara e nada de encontrar um papai ou uma mamãe para ele. Ninguém entre os 177 habilitados ativos de Londrina. Iuri apresenta alguns sinais de atraso motor, o que gerou a suspeita de que ele possa desenvolver alguma deficiência futuramente. Por ainda ser um bebê, não é possível um diagnóstico certeiro. A juíza optou por buscar, então, uma família apta para adotar uma criança portadora de necessidades especiais. Não havendo pretendentes na própria comarca, o próximo passo é recorrer ao CNA, onde constam 1308 habilitados para esse perfil. Tranquilo no bercinho, Iuri é uma criança adorável, sem nenhum problema aparente. Arregala os olhinhos quando alguém se aproxima, como se quisesse interagir. É o xodó de Vanderlua, uma das mães sociais.

“Ás vezes eles precisam de um abraço, às vezes é preciso dizer não para algo que eles fazem”. Vanderlua tem 41 anos e quatro filhos. Para ela, o cuidado e preocupação com as crianças e adolescentes da casa lar é amor de mãe mesmo. As mães sociais estão ali para ser alguém em quem eles confiem. Estão ali tanto para ajudar a suprir necessidades afetivas, como para prestar os cuidados diários referentes a eles, passar para eles valores, carinho e educação para que cresçam com uma boa orientação.

Além das mães sociais, há também duplas psicossociais que atendem, cada uma, duas casas, ou metade das crianças e adolescentes do abrigo. Paulo Aguiar, que me levou para conhecer todas as áreas do local, é um dos psicólogos e auxilia a coordenação. Enquanto psicólogo da instituição, explicou que não é feito um atendimento clínico e individualizado. “O vínculo que temos com essas crianças e adolescentes é diferente, porque estamos muito próximos a eles, então a atuação acontece conforme as demandas do dia a dia”. Posso descrevê-lo como um negro alto, graúdo, bem humorado e sorridente. Depois de conhecer as casas lares, passamos por uma parte vazia do terreno para a qual ele apontou empolgado: “aqui vamos construir uma área de lazer para eles brincarem”. Fez uma pausa, revisando o que disse, e o sorriso murchou. “Se bem que aqui a maioria é adolescente né, nem brincam mais”. O abrigo Anália Franco não é uma exceção. Entre todos os que esperam por pais e mães que os adotem no Brasil, perto da metade já entrou na adolescência.

Mesmo esperando um número pequeno, foi espantoso calcular a porcentagem de habilitados cujo perfil abrange a faixa etária dos 13 aos 17 anos. ZERO VÍRGULA CINCO POR CENTO do total. A estatística é uma sentença de permanência na condição de isolamento social e familiar. É irônico que jovens sejam considerados velhos, mas o velho do qual se fala aqui é empregado no sentido de desgastado; usado. As crianças velhas e os adolescentes são tratados como mercadorias de segunda-mão, sujeitas a apresentar defeito. Por serem velhas, há nelas peças que não se troca mais. Compensa esperar e ficar com um modelo mais novo. De preferência aquele que nem lançou ainda; que vai sair novinho de fábrica.

Marcela, Maíra, Renata, Luca e Iuri são uma pequena amostra das vidas que ficam escondidas por trás dos números e das estatísticas. Cada criança ou adolescente é único. Podem ter sido afastados da família biológica por diversos motivos. Abandono, maus tratos, negligência, violência, abuso sexual, dependência química dos familiares ou outras condições que caracterizam ameaça e impossibilitam esse vínculo. Cada história é única. Cada forma de lidar com a própria história é única. Cada adaptação em uma nova família é única, assim como cada adotante é único. Qual é a reação quando são levados para o abrigo? Qual é a posição deles em relação à possibilidade de serem adotados? Qual é o sentimento em relação à família biológica? Pode-se formular mil perguntas, mas as respostas serão únicas para cada caso.

*Os nomes das crianças e adolescentes abrigados foram substituídos nesta reportagem para proteger sua identidade.

Continua.

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Infância e adolescência entre muros 5

Infância e adolescência entre muros

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Nathalia Maciel Corsi

O tempo inimigo

Toda vez que abre o guarda-roupa e olha para a boneca Barbie, os bichinhos de pelúcia e os creminhos ali guardados, Tereza Rufino alimenta um pouquinho mais o sonho que sempre teve de ser mãe através da adoção. “É uma gravidez sem tempo determinado”, define. Habilitada há um ano, a pedagoga conta que a preparação começou muito antes de dar entrada ao processo. “Procurei me firmar no trabalho e ter a casa própria para garantir segurança à criança”. A casa com três quartos em que mora atualmente foi planejada em função da adoção. Solteira, ela cuida da mãe de 82 anos.

A estrutura financeira e emocional já está pronta. Tereza já se sente mãe e espera ansiosa a chegada de uma menina em sua vida. Mais do que isso não dá para antecipar. As roupas, os sapatos, os brinquedos e outros itens necessários serão escolhidos junto com a dona deles. “Uma amiga minha adotou achando que ia encher a menina de brincos e vestidinhos, mas a menina odeia! A criança já vem com certa personalidade, tem que esperar para ver o que gosta, não adianta criar uma fantasia”. A imprevisibilidade também se dá por conta do perfil amplo. A idade da filha pode variar entre ume oito anos. Até pensava em abrir um pouco mais, mas antes de se habilitar decidiu visitar alguns abrigos e mudou de ideia.

Ficou desanimada com a negligência que sentiu haver dentro das instituições. Conheceu uma menina de 12 anos que namorava lá dentro, e a irmã, de 14, estava grávida. Soube da história de crianças que chegaram com meses de vida e ainda estavam abrigadas com 15 anos de idade. Conversou com crianças mais velhas que, mesmo após a perda da guarda, mantinham contato com a família biológica. Soube que um menino conseguia fugir à noite e tinha liberdade para visitar o irmão presidiário. Ficou temerosa em relação a como aqueles adolescentes, que viviam a realidade do abrigo há mais tempo, estavam sendo criados.

A classificação de Tereza na fila de espera depende da idade da criança. “Para oitoanos sou a segunda colocada, para cinco anos sou a quinta colocada em Londrina”. Se for verdade que os sonhos durante a noite são uma mixagem daquilo que vivenciamos ou pensamos ao longo do dia, ela deve passar horas imaginando como será a filha. Já sonhou várias vezes que a menina estava em casa. Quando acorda do sonho, bate a frustração pela demora do sistema. A expectativa é dividida com a família toda. Já nasceu? Vai lá no Fórum, fica em cima! Quando chegar, o enxoval é por minha conta! Tomara que venha logo! O que ajuda e traz força são as experiências de quem já conseguiu adotar. Tereza fez vários amigos pela internet e a troca de ideias a respeito da maternidade é quase diária. O contato com famílias adotivas tornou Tereza muito consciente. Sabe que provavelmente terá que encarar testes e recusas. “Vai ser preciso conquistar a confiança dela. Se a criança foi abandonada, alguma coisa ruim aconteceu com ela!”. O histórico é mais uma das coisas que não dá para prever.

O tempo não é inimigo apenas na fase da espera pela qual passam as futuras famílias adotivas. Influencia direta e indiretamente todas as etapas que compõem o processo de adoção. A nova lei, vigente desde 2009, estabelece um prazo de 120 dias para que aconteça a destituição do poder familiar, mas ainda assim o número de crianças em abrigo e fora da fila de adoção é extremamente alto. Depois de levados ao acolhimento institucional, as crianças ou os adolescentes e suas famílias são avaliados por psicólogos e assistentes sociais, que acompanham as insistentes tentativas de reinserção familiar. “Estes estudos técnicos demandam tempo; não são matemáticos”. Para a juíza Camila Gutzlaff, trata-se da principal dificuldade para que o prazo seja respeitado.

Vetar o retorno de uma criança à família é realmente muito sério, complexo e definitivo. A destituição só ocorre em casos em que existe o abandono completo por parte da família, a reiteração da prática da negligência ou em casos extremos, como abuso sexual e tortura. Em casos que envolvem dependência química, por exemplo, o destino das crianças fica condicionado ao tempo de tratamento dos pais. Há casos que se arrastam por anos. Dos 45950 abrigados no país, de acordo com o Cadastro Nacional de Crianças Acolhidas (CNCA), 7427 estão afastados permanentemente da família e prontos para a adoção. Enquanto o tempo vai reduzindo significativamente as chances de serem adotados dos 84% cuja situação está em aberto, os pais deles ganham segunda, terceira, quarta e quinta chances. No Paraná, essa proporção é parecida: 79% dos casos não estão resolvidos.

A falta de estrutura e pessoal em muitas Varas da Infância e Juventude prolonga ainda mais o tempo. Almejando maior agilidade na busca de adotantes para as crianças que aguardam novos pais, o CNJ apresentou mudanças no CNA neste ano. A simplificação do preenchimento é uma das medidas que otimizam o trabalho. Diminuiu de 35 para 12 o número de itens de informações que os juízes precisam preencher. A modernização incluiu automatização no cruzamento de dados de candidatos e pretendentes à adoção. Caso haja compatibilidade de perfis, o novo sistema emite um alerta. A primeira impressão dos magistrados, no entanto, não foi tão animadora. Algumas ferramentas de busca foram retiradas, gerando dificuldades de pesquisa. “A gente conseguia localizar quem era o pretendente e já entrava em contato direto. Agora, a gente está só com o número de habilitação; tem que entrar em contato com a Vara para tentar localizá-los e isso está demorando mais”. Apesar da crítica, a juíza Camila Gutzlaff afirma que a grande vantagem do novo sistema é a possibilidade de verificar perfis não apenas locais, mas a nível nacional.

*Os nomes das crianças e adolescentes abrigados foram substituídos nesta reportagem para proteger sua identidade.

Continua.

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Infância e adolescência entre muros

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Nathalia Maciel Corsi

A rede guardiã: ações virtuais que desconstroem muros concretos

JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 6 Foto 1 003

Ellen Tomazeti e Celmara Mendes: presidente e vice do GAAAI.
Foto: arquivo pessoal de Ellen Tomazeti.

Passou o tempo em que a adoção era tabu, fazendo com que os pais escondessem a origem adotiva dos filhos. Hoje, as famíliasque buscam essa opção legal para se tornarem completas quebram muitas barreiras em nome do diálogo saudável sobre o tema. A adoção passou a ser entendida como uma maneira de constituir família, independentemente de estado civil, orientação sexual e raça. São vários os grupos que atuam promovendo discussões e respondendo a dúvidas de pessoas interessadas. Celmara Mendes e Ellen Tomazeti são exemplos de mães adotivas que se uniram para militar em benefício da causa. Juntas, as curitibanas fundaram o Grupo de Apoio à Adoção Amor Incondicional (GAAAI).

Na região da capital, três outros grupos vieram antes. O Grupo de Apoio à Adoção Consciente (GAACO) é o mais antigo e trabalha fazendo a preparação dos habilitados. Nele é ministrado o curso obrigatório por lei e são organizadas reuniões mensais abertas ao público para difundir informações a respeito do processo de adoção. O Projeto Recriar atua preparando casais para apadrinhar os jovens abrigados. O Projeto Dindo, da mesma forma, tem como principal atividade instruir e acompanhar padrinhos afetivos. O GAAAI, de Celmara e Ellen, surgiu quando ambas passaram pelo processo de adoção e sentiram a ausência de um apoio focado no período pós-adoção.

Quando a adoção é finalizada, as famílias adotivas não recebem mais o acompanhamento de uma equipe técnica, já que a prioridade desses profissionais são as crianças em situação de risco. Sem terem a compreensão de certos comportamentos da criança, os familiares e amigos muitas vezes menos ajudam e mais atrapalham. Encontrar um psicólogo que trabalhe na área da adoção não é tão simples. Acontece que essa fase inicial é quando mais se precisa de apoio e conselhos pertinentes. Entre o idealizar e a realidade, há uma diferença gritante. Ser pai e mãe de uma hora para outra é complicado, e nada melhor do que recorrer a quem já passou pela mesma situação. “A Ellen me socorreu quando eu enfrentei isso, e outras pessoas, entendidas no assunto, socorreram ela; então a gente foi formando uma rede de apoio”, lembra Celmara.

A atuação do GAAAI é virtual, o que possibilita atender pessoas do Brasil inteiro. Em um grupo fechado, no Facebook, famílias adotivas contam com dicas de psicóloga e pedagoga para conseguirem desenrolar com equilíbrio os inconvenientes da adaptação dos filhos. Além do ponto de vista profissional, as vivências compartilhadas permitem que sejam identificados comportamentos comuns das crianças e adolescentes nesse estágio em que os vínculos familiares ainda estão sendo construídos, o que deixa mamães e papais mais seguros. Com total descrição, apenas sob olhares de quem conhece de perto a experiência da adoção, os participantes podem se sentir à vontade para relatar os episódios da vida cotidiana com os quais precisam de ajuda para saber como lidar. Muitas vezes a pessoa nem precisa se abrir. “Basta ler o relato de outras, ela olha e pensa ‘meu filho também faz isso, vou tentar fazer o que estão indicando aqui’, vai entendendo sozinha”, comenta Ellen. Das queixas e angústias que aparecem por lá, a maior parte está relacionada à não aceitação da autoridade dos pais e a problemas escolares.

O que impulsiona o trabalho de Celmara, Ellen e tantas outras pessoas engajadas, é a vontade de evitar que crianças e adolescentes sejam devolvidos pelas famílias adotivas e sofram uma segunda rejeição, o que infelizmente acontece mesmo depois de os pais terem sido avaliados e preparados. As curitibanas fazem parte dos moderadores de outro grupo no Facebook, este aberto a qualquer interessado, ao qual estão conectados quase 5 mil membros. Batizado de A Favor da Adoção de Crianças Reais, o grupo funciona como um chamariz para que sejam encontrados novos pais em apuros a serem inclusos na rede de apoio do GAAAI. “Quando alguém faz um comentário e fica subentendido que está com dificuldades na adoção, começamos a conversar com essa pessoa e chamamos ela para o grupo restrito”, detalha Ellen.

Não pense que o A Favor da Adoção de Crianças Reais é um grupo de fachada. Os grupos de apoio à adoção atuam diretamente nesse propósito, buscando soluções eficazes às adoções necessárias. A busca ativa é feita por voluntários, chamados carinhosamente de cegonhas, e existe para auxiliar os órgãos públicos competentes na procura por adotantes previa e regularmente habilitados para crianças e adolescentes que, por seu perfil, são denominados “de difícil colocação” em uma família adotiva. Ou seja, é uma forma de viabilizar adoções tardias, inter-raciais, de irmãos e especiais, para as quais não foram encontrados adotantes por meio do Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Mesmo nos grupos de apoio que realizam reuniões presenciais, o contato com os habilitados é totalmente facilitado pelas redes sociais. Cientes de que os grupos de apoio têm contato direto com habilitandos e habilitados, e conhecem inclusive as alterações de perfis não comunicadas às comarcas, equipes técnicas de muitas varas da infância e juventude abraçam essa parceria

Os muros físicos dos abrigos não são os únicos na vida daqueles que têm a infância e adolescência cercadas de esperanças frustradas. Erguem-se diante deles muros da burocracia, muros do preconceito, muros da indiferença, muros das falhas contidas na rede de proteção, muros do desconsolo, muros do desamor, muros da ausência familiar, muros de traumas, muros de lembranças. Com tantos muros, a doçura e ingenuidade acabam presas. As crianças premiadas por serem adotadas tardiamente chegam às casas das famílias fragilizadas demais ou armadas demais para corresponder de imediato às expectativas. Como vão ser delicadinhas e polidas se o repertório que conhecem é ácido? Não são as crianças as problemáticas. O problema está no tratamento dado à adoção no país, área que precisa desconstruir muitos muros ainda. Pais e filhos adotivos, aspirantes à adoção e pessoas preocupadas com o abandono de crianças e adolescentes se unem para estimular a adoção, dar apoio aos que adotam e educar a comunidade sobre o assunto, porque acreditam na família como melhor ambiente para um desenvolvimento sadio. Histórias reais de adoções tardias, especiais, inter-raciais e de irmãos são o respiro entre os muros e desmistificam as adoções consideradas impossíveis.

*Os nomes das crianças e adolescentes abrigados foram substituídos nesta reportagem para proteger sua identidade.

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Nathalia Maciel Corsi

Um ato de amor recíproco: experiências de adoção tardia – parte 1

JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 7 Foto 1 003

Celmara e Eduardo com as filhas Ana Carolina e Silmara.
Foto: arquivo pessoal de Celmara Mendes.

Antes que o marido saísse para o turno seguinte de trabalho, Celmara serviu o almoço. A filha, Fernanda, estava na faculdade e avisou que não almoçaria com os dois. Sentado à mesa de frente para a esposa, entre uma garfada e outra, Eduardo tomou coragem para verbalizar algo que estava sendo preparado no coração do casal havia muito tempo.

– Amor, posso te fazer uma pergunta?

– Pode. Faça.

– Mas não precisa responder agora. Te dou um tempo pra pensar.

Dois olhos azuis o fitaram apreensivos por alguns instantes, até que ele continuasse.

– Vamo adotar?

Os olhos relaxaram.

– Como assim vamo adotar e eu não posso te responder agora? Claro que sim!!!!!

A reação da galega de 39 anos foi sair pulando e dançando pela casa. A vontade era gritar feito doida, aaaaaaaaaaaaah colocar o que estava sentindo para fora. Para surpresa ainda maior, o marido tinha pesquisado tuuuuuuuudo a respeito da adoção. Já sabia toda a documentação necessária, inclusive que dali a dois dias haveria uma reunião informativa na Vara da Infância e Juventude de Curitiba, que coincidiria com o dia de folga dele. Começou o corre-corre. Eduardo foi trabalhar e deixou a dona de casa com duas tarefas: começar a arrumar a papelada para dar entrada no processo de adoção e controlar sua euforia. A segunda com certeza a mais difícil. Tantos sonhos, vontades, planos…. Ele queria que o assunto ficasse em segredo, mas ela o convenceu a contar pelo menos para os familiares mais próximos.

No relacionamento de Eduardo e Celmara, as iniciativas sempre foram tomadas por ela. Foi ela quem o pediu em namoro, numa noite de carnaval. Depois de seis meses juntos, foi ela quem o pediu em casamento. Foi ela, também, quem comprou as alianças. Mulher intensa, expansiva, entusiasta e inquieta. Ele é mais sisudo e introspectivo. A personalidade explica por que os tradicionais pedidos foram invertidos na história do casal, mas o gesto do marido no almoço daquela terça-feira reavivou em Celmara o sonho perseguido ao longo dos oito anos em que estavam casados. “Foi a pergunta mais importante da minha vida”, resume.

A filha Fernanda, hoje com 24 anos, é fruto de um relacionamento antigo. Ser mãe de novo era um desejo muito forte, mas os filhos não vinham. A pílula anticoncepcional foi suspensa e nada de neném. Exames foram pedidos pela ginecologista e estava tudo normal: ela estava ovulando e fértil. Duas videolaparoscopias foram feitas, induções de ovulação também, zilhões de simpatias foram cumpridas, mas a menstruação continuava fiel a Celmara. Todo mês, quando dava as caras, aumentava mais a angústia e a sensação de impotência. Eduardo também se submeteu a uma série de exames e os resultados estavam normais. Foram cinco anos de tentativas, loucuras e tratamentos, mas os testes de gravidez continuaram negativos. A frustração descontada na comida fez Celmara engordar 30 quilos. O aparecimento de um cisto a obrigou a retomar o uso de anticoncepcionais. Foi então que o casal desistiu da gravidez. Ela cogitou a adoção, mas o marido deixou claro que não queria.

O coração de mãe, sedento pela bagunça e pelo carinho de uma criança, foi acostumando a se ocupar com as três filhotas peludas, os filhos das amigas e o sobrinho, que sempre passa as férias sendo paparicado na casa dos tios. Até que o coração de pai se abriu. “Quando eu me acostumei que seríamos só nós na velhice, ele veio com essa pergunta, mas isso de tanto eu mostrar o lado bom da adoção; que não é o sangue que faz a família.”

O perfil ficou a critério de Eduardo. “Eu quero ser mãe, o tititi aqui é você”. Ok, fácil de resolver: uma criança até cinco anos, sem delimitação de sexo ou cor, saudável. Não parou por ai. Celmara mexeu seus pauzinhos. Começou a ler para o marido os artigos e depoimentos sobre adoção que achava na internet. Pensando em não passar por toda a tramitação burocrática mais de uma vez e entendendo melhor a realidade das crianças abrigadas, Eduardo decidiu ampliar o perfil: duas crianças, de zero a oito anos, sem preferência por sexo ou cor. Só não podia ser criança especial. “Ele disse que não quer, porque ele vai se sentir incapaz, não vai dar conta, não adianta forçar né?”, explica. Se o perfil ficasse por conta de Celmara provavelmente não haveria essa restrição. Branco, preto, azul, amarelo, com uma perna, duas ou três, com uma ou cinco cabeças, era indiferente. Ser recém-nascido também não era um pré-requisito para ela. “Eu não queria um filho ou uma filha para bater na cara da sociedade, eu queria ser mãe.”

O processo foi mais ágil do que imaginavam. Ufaaa!!!!! Celmara é ansiosíssima, mas a espera demorou menos do que os nove meses de uma gestação. A habilitação saiu em apenas três meses. Por ter feito amizade com pessoas engajadas em grupos de apoio à adoção, conheceu a possibilidade da busca ativa, e foi por esse meio que, quatro meses depois de estar oficialmente habilitada, encontrou as filhas.“Telefonema eu não recebi, as minhas meninas vieram pelo Face-Chat”, conta às gargalhadas.

Foi pelo Facebook, através de uma cegonha, que Celmara recebeu a notícia de que a Vara de Natal (Rio Grande do Norte) estava procurando adotantes para duas irmãs pardas de quatro e cinco anos, a mais velha prestes a fazer seis. Interesse confirmado, fotos chegaram na caixa de mensagens do casal. A certeza de que elas eram a parte que faltava na família foi imediata. Os habilitados locais, que teriam preferência em relação ao casal, foram consultados, mas nenhum quis levar a adoção em frente. Eles foram até o fim. O estágio de convivência, para que pudessem estabelecer um primeiro contato, também foi via internet. “O meu marido não pega 30 dias seguidos de férias nem se a Dilma mandar e, um pouquinho antes da cegonha falar comigo, ele já tinha pegado 15 dias”. Entendidas as condições do casal, a Vara foi flexível. Durante 22 dias, Celmara conversou com as meninas pelo telefone ou pela webcam. Eduardo chegava do trabalho e gravava vídeos para que elas assistissem no dia seguinte, além das cartinhas escaneadas e fotos que enviavam. Quando o período de estágio terminou, ele acertou os cinco dias de licença paternidade a que tinha direito para irem buscar as filhas.

PAAAI, MEU PAI CHEGOU! Assim que o viram, as duas pequenas se atiraram nos braços de Eduardo. Enchiam a boca para chamá-lo de MEU PAI! Quando souberam que o papai e a mamãe iriam buscá-las, não esperaram ajuda para arrumar suas coisas. Começaram a colocar suas roupinhas em sacolas de supermercado. Sabiam que iriam para casa. QUERO IR EMBORA PRO PANAMÁ, a mais nova repetia. Despediram-se da equipe do abrigo e embarcaram em um táxi com os pais. “Foi o momento em que minha ficha caiu, só nós quatro, ali eu vi que tudo era verdade e que elas eram nossas!”, conta a mãe, que, no início, ficou um pouco pra escanteio.

O foco era o pai. É comum crianças abrigadas sentirem bastante a carência paterna. Inconscientemente, muitas delas sentem também a rejeição da genitora e, por isso, apegam-se ao pai nos primeiros dias da adoção. Andar na rua era só de mãos dadas com o papai, comida era o papai que tinha que servir, beijocas por vontade própria a toda hora no papai, e o papai estava maravilhado com os dois “grudinhos”. Mamãe? Só pra dar banho e ajudar a se vestir. Era chamada a toda hora de tia, do mesmo jeito que se referiam às tias do abrigo. Celmara soube lidar bem com a situação. Sabia que era apenas uma fase. Estava adorando ver o pai atencioso que o marido estava sendo, como nunca imaginou que seria. Nem por isso, deixou a brincadeira rolar solta. Enquanto o pai babão não conseguia dizer não para nada, era ela quem impunha os limites. Tomava o brinquedo quando as duas brigavam por não querer dividir; ditava o horário para ir dormir e tomar banho; repreendia quando gritavam ou bagunçavam demais. Tudo para que as meninas entendessem que na família, além de muito amor, haveria regras.

Quando a licença paternidade de Eduardo chegou ao fim, as meninas ficaram mais receptivas em relação à Celmara. Elas pediram várias vezes para mamar no peito e sempre ouviram como resposta que não tinha leite e que já estavam grandinhas para mamar. Certo dia, o pedido de mamar veio mais uma vez e foi aceito. As meninas puderam conferir por conta própria que não havia leite nos seios e esse ato fez Celmara ser reconhecida como mãe. Ganhou beijos e a mais novinha disse que era seu bebê. A partir disso, nunca mais foi chamada de tia.

Depois que as florzinhas Ana Carolina e Silmara (sim, coincidência!) chegaram na casa e na vida do casal, foram se integrando à família de maneira tranquila, o que não quer dizer que não protagonizaram episódios de regressão, ciúme, questionamentos e outros conflitos naturais da adoção tardia. A adaptação só foi tranquila porque Celmara e Eduardo estavam preparados. A realidade à qual as duas pequenas estavam habituadas mudou radicalmente.

Saíram de Natal com a temperatura em 35ºC, entraram num avião e chegaram em Curitiba com chuva e os termômetros marcando 10ºC. Até ali, nunca usaram uma blusa de frio na vida. De repente, ganharam bota, toca e luva. Foram instruídas a fazer coisas como limpar a boca com guardanapo e escovar os dentes sempre depois das refeições, o que não era um costume. O sotaque das pessoas com quem passaram a conviver era estranho a elas. Até o jeito de ser das pessoas, uma novidade a parte. Naturalmente cativantes e carinhosas, elas vieram para um lugar onde o povo, em geral, é mais fechado.

Mais do que aspectos culturais, as meninas carregavam uma vivência familiar negativa. Celmara e Eduardo decidiram não revelar para ninguém o que está escrito nos documentos que trazem o histórico delas. A cada vez que o passado é relembrado, é como cutucar uma ferida. Está tudo impresso e guardado para quando elas crescerem e quiserem ver, mas é algo tratado como uma particularidade que cabe somente à família. Passados quase dois anos da adoção, as marcas que ficaram principalmente na memória de Silmara, a mais velha, certamente ainda influenciam parte de seu comportamento. Precisaram ser respeitadas e estão sendo, a cada dia, superadas com muita paciência e amor.

As alegrias que as filhas trouxeram são maiores que as dificuldades iniciais enfrentadas e problemas que possam surgir. É uma coisa assim que a gente para e pensa: como eu vivi antes disso? Era tão sem graça. Era tão sem sal né, não tinha emoção nenhuma. Hoje, eu sei que vou chegar em casa e as minhas nega tão de pijama lá…e eu vou sair à noite…mas, calma, depois a gente arruma! Junto de si, trouxeram cor, alegria e mais valor para a vida dos pais.

A parede do quarto decorada com figurinhas das princesas da Disney é um convite a sonhar. Sonhar junto com a mãe, o pai e a irmã mais velha. Perceber que a adoção é dar a luz a uma nova vida. Intuir que é uma via de mão dupla. Preenche-se e se é preenchido; transforma-se e se permite ser transformado. Entender o quanto eles esperaram por suas princesinhas. Enxergar que a arrumação do quarto foi um ato pequeno perto da disposição para acomodá-las na nova rotina. Os travesseiros sobre a cama escondem tesouros. Descobrir o mundo que existe em baixo deles é também uma convocação a fantasiar. Fantasiar junto com Sil e Ana. Sentir a grandeza que tranqueirinhas e bilhetinhos podem ter aos puros olhinhos das irmãs. Presumir que um pedacinho de papel com um beijo de batom e uma carinha feliz desenhada com caneta Bic é a materialização do amor para elas. Um amor que ainda não haviam experimentado e que não escapará mais delas. Está guardado e seguro, bem debaixo das cabecinhas que ansiavam por um direito seu enquanto crianças, reconhecido constitucionalmente, mas que se torna distante para muitos dos abrigados: ter uma família.

E elas falam…. A Ana disse que, quando ela crescer, ela quer adotar um monte de cachorrinho na rua, criança ela só quer uma. E a Sil fala que ela quer adotar bastante criança! Fala que vai trabalhar e ter dinheiro pra adotar bastante criança. Tá bom! Deixa ela. Preciso de netinhos mesmo!

*Os nomes das crianças e adolescentes abrigados foram substituídos nesta reportagem para proteger sua identidade.

Continua.

Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 1
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 2
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 3
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 4
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 5
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 6
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Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 8
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 9




Infância e adolescência entre muros 8

Infância e adolescência entre muros

8

Nathalia Maciel Corsi

Um ato de amor recíproco: experiências de adoção tardia – parte 2

JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 8 Foto 1 003

Ellen, Willian, Samuel e Julia: o processo de adoção de Samuel ainda corre na Justiça.
Foto: arquivo pessoal de Ellen Tomazeti.

– Oh, esses aqui são teu pai e tua mãe. Eles vão vir amanhã te buscar.

Não dá pra imaginar o que passou pela cabecinha de Samuel quando viu grudada na geladeira do abrigo aquela foto impressa em preto e branco num sulfite. Ninguém disse a ele antes que teria pai e mãe novos. Os irmãos já estavam acomodados em famílias adotivas. Haviam sido separados e ele não entendia o porquê. Sentia falta especialmente da irmã, Julia, que tinha idade mais próxima da sua.

A ordem do juiz responsável pelo caso era de que os quatro irmãos fossem adotados por famílias da mesma região, possibilitando o convívio entre eles. Achar adotantes para Samuel foi mais difícil do que para os irmãos, por ele ser o mais velho, menino, pardo, além de tomar medicações para bipolaridade.

Sem nenhum preparo psicológico, o menino teve uma única noite para assimilar aquela notícia. Quando a diretora do abrigo disse que ia apresentá-lo ao casal, abaixou a cabeça e psssssssssh, se mandou para o quarto. Estava assustado. Foi necessária muita insistência para que ele aceitasse estabelecer algum contato com os estranhos que diziam ser seus pais.

O mineirinho Samuel caiu sem paraquedas numa família curitibana. O período de adaptação foi conturbado. Além de bastante diálogo e firmeza, muitas vezes foi preciso contê-lo fisicamente. Chutes, tapas na cara e unhadas faziam parte do repertório cotidiano. O comportamento do piázinho era de uma agressividade a qual Ellen e Willian nunca haviam presenciado.

– Eu vou enfiar uma faca no seu bucho.

Esse era o tipo de coisa que Ellen teve que ouvir quando o filho de oito anos chegou em casa, trazendo consigo uma bagagem de muita violência. “Ele perguntava pro meu marido porque ele não batia em mim!”, indigna-se. O casal venceu o choque inicial e se dedicou a ensinar a Samuel que não é normal um homem bater numa mulher e que não é natural enfiar uma faca no bucho de alguém, entre tantas outras posturas condenáveis. Para ele, foi difícil ouvir que as referências que conhecia estavam erradas. Precisou abandonar tudo o que tinha como verdade, e isso significou renunciar à mãe e ao pai biológicos.

Nunca haviam sido feitos laudos médicos para atestar a bipolaridade da criança, ou constatar que os problemas aparentemente psiquiátricos davam-se pela própria condição de abrigamento. Após exames, diagnosticou-se que Samuel tem apenas problemas de aprendizado. DPAC, Distúrbio de Processamento Auditivo Central, e DDA, Distúrbio de Déficit de Atenção. “Ele não aprende na mesma velocidade das outras crianças e precisa de mais incentivo, mas aprende e é muito inteligente”, garante a mãe Ellen.

Assim que adotaram Samuel, Ellen e Willianpediram a suspensão de sua habilitação pelo prazo de um ano. Quando viram que o garoto já estava adaptado à rotina familiar, entraram novamente no CNA. Mudaram o perfil para menina, de zero a oito anos, qualquer etnia, aceitando deficiências leves, HIV positivo e qualquer histórico. Samuel participou dessa escolha. A irmã deveria ser mais nova que ele. Por conta do perfil aberto, a família se preparava para uma nova adoção tardia. O quarto, inclusive, estava montado para uma menina maiorzinha. Oito meses depois, veio um bebê. O casal teve quinze dias para correr atrás de berço, roupas, fraldas, sapatinho e os demais itens necessários. Julia, xará da irmã biológica de Samuel, chegou com um ano e três meses de idade. Ué, que tempo curto de espera para um bebê!!! O que restringiu o número de possíveis adotantes para Julia não foi a idade, mas as outras características. Negra e filha de drogados, nasceu com sífilis e uma má formação no intestino.

Com a Julia, a adaptação necessária foi dos pais, já que a demanda dela não era psicológica, mas física. Samuel desde que chegou tomava banho sozinho, levantava sozinho, arrumava a cama sozinho, brincava sozinho. Com ela, foi preciso tentar entender cada choro: se era de fome, de medo, de frio; além de dar banho, dar papa. É uma demanda física que não para, porque bebê exige atenção 24h. O problema no intestino precisava de tratamento e cuidados de enfermagem, que foram devidamente orientados aos pais. Ao ver que uma criança dependeria dela pra tudo, Ellen ficou assustada. Julia era muito miudinha, usava roupinha para bebê de nove meses. Pela idade, já deveria estar andando, mas estava começando a engatinhar. Era grande a falta de estímulo. “Essa foi a diferença maior. Em questão de relacionamento emocional, ambos são iguais. A sensação de cuidado, de carinho, de vínculo, os dois despertam da mesma forma”, derrete-se a mamãe.

Os desafios enfrentados não se esgotam dentro de casa. Estão em todo lugar. Em muitos casos, há manifestações de preconceito na família. Na rua, questionamentos constrangedores são feitos mesmo por estranhos.

Fui comprar ração pros meus cachorros. Eu sempre vou no mesmo lugar. A Julia tava dormindo no meu colo. E a mulher me conhece há mais de 10 anos. Ai ela viu ela no meu colo e falou:

– Quem é essa menininha?

– É minha filha!

Ai ela, no meio do pet shop, que é imenso, falou pra todos os funcionários dela ouvirem:

– EU NEM VI ESSA MULHER GRÁVIDA, ELA TA COM NENÉM NO COLO. (Todo mundo olhou).

– Não, eu tava grávida. Eu tava grávida do coração, mas eu tava grávida.

Então existe essa coisa de reafirmar, porque as pessoas ainda veem que filho por adoção não é filho de verdade. É seu filho de verdade? É, seja por adoção ou biológico, é filho. Tem um papel lá que diz que é meu filho, é meu.

*

Semana passada eu fui num aniversário. Uma senhora sentou ao lado da gente. Eu não sei como ela sabia que meus filhos eram filhos por adoção. A Julia ta na cara, porque a Julia é negra. Mas o Samuel é uma cópia fiel do meu marido. Uma cópia autenticada em cartório do meu marido. Ninguém diz que não é filho dele. A mulher sentou na mesa..ela olhou assim…meu filho estava sentado comendo, e ela olhou pro Samuel e olhou pra mim e falou:

– Deve ser difícil isso né, começar uma família com filho assim.

Olhei pra ela e falei – não, não é não. E virei a cara.

– Mas não é difícil começar a família com filho criado desse tamanho?

Meu filho foi murchando assim, ele foi descendo da cadeira. Me deu vontade de pular no pescoço daquela mulher. Ela não tem o mínimo de sensibilidade. Ela tava ali, do lado do meu filho. DO LADO! Ai eu virei pra ela, acho que falei com tanta raiva que ela levantou da mesa e foi embora,

– Não, não é, apesar do tamanho, ele é meu bebê. E abracei ele.

Nisso, ele abriu um sorrisão. Mas assim, as pessoas não tem semancol. Eu não tenho vergonha nenhuma e ele também sabe… quando o pessoal pergunta como é a adoção, demorou muito? Ele mesmo fala, ele sabe e ele vai nos grupos de apoio contar a história dele. Mas existem formas de falar. Ela poderia ter dito assim: é difícil a adaptação de uma criança maior? Beleza, existem formas de perguntar, sem magoar a criança. Ele vai ter que aprender uma hora, ele ainda é muito novo, ele tem dez anos, mas a idade dele mental é de sete, então mentalmente ele é novinho, tem um atraso ali. Acho que ao longo dos anos ele vai aprender a se defender e a falar, mas ele evita falar, por exemplo, na escola que ele é filho adotado. A escola tem ciência, mas ele não expressa isso pros colegas. Tem medo da reação, do preconceito.

Ellen se chateia com elas, mas tira essas situações de letra. Sempre tem uma boa resposta preparada. A preparação fez com que superasse todos os aspectos ruins da adoção: o comportamento violento do filho, a depressão pós-adoção que enfrentou, um pinguinho de crise no casamento. Tudo isso passou. O que coleciona são os momentos diários de amor entre pais e filhos que divide com William.

Eu tava na cama deitada no domingo de manhã e ele veio na minha cama.

– Posso deitar com a mamãe?

– Pode. Ele deitou comigo.

E ai, de repente, ele se enfiou de baixo da coberta, deitou no meio das minhas pernas, e falou assim:

– O bebê tem que nascer.

Eu já sabia que algumas crianças faziam a representação do nascimento da família biológica, eu falei assim:

– E agora? Então nasce.

Ai ele sentou e me abraçou: fez o neném nascer. Esse foi o momento auge da adoção. Ele de fato me aceitou como mãe naquele momento. Mas a gente teve que passar por cinco longos meses de muito estresse e muito trabalho. Não foi fácil né? Mas nem toda adoção tardia dá trabalho. A minha deu exatamente porque ele demorou muito pra sair da família biológica, então ele vivenciou muita violência, muita agressão… então ele trouxe.

O trabalho duro valeu a pena.

O Samuel fala que eu sou a melhor mãe do mundo. De todas as mães que ele teve, ele acha que eu sou a melhor mãe do mundo. Tem até uma musiquinha que ele canta “melhor mamãe do mundo, melhor mamãe do mundo, brinca um pouquinho, brinca um pouquinho, melhor mamãe do mundo”.

*Os nomes das crianças e adolescentes abrigados foram substituídos nesta reportagem para proteger sua identidade.

Continua.

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