Infância e adolescência entre muros 9

Infância e adolescência entre muros

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Nathalia Maciel Corsi

Um ato de amor recíproco: experiências de adoção tardia – parte 3

JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 9 Foto 1 003

Tiago e Kívia.

Foto: Laercio Schneider.

Kívia e Tiago, quando foram adotados, com sete e nove anos, não se desgrudavam. Tinha na casa um quarto para cada um. Eles se sentiam mais seguros juntos. Depois de uns 15 dias, Tiago passou a dormir sozinho, mas não conseguia dormir à noite. Não pregava o olho por medo de ser reabrigado diante do mal comportamento da irmã. Talvez alguém tenha incutido esse temor no próprio abrigo. Se você não se comportar, eles vão te devolver. O sono tranquilo só veio quando a mãe percebeu e teve uma conversa franca com ele, afirmando que os dois eram filhos que ela amava muito e não ia devolver de jeito nenhum.

“A Kívia deu muito trabalho. Fazia muita manhã, dava piti para tudo, queria ganhar as coisas no grito. A gente chegou a falar com a nossa vizinha, que se ela escutasse os gritos, não tinha ninguém batendo!”, conta a mãe. Na hora de ir pra escola, ela gritava que não queria ir. Quando o irmão pedia colo para a mãe, ela tinha um ataque de ciúmes, porque a mãe era dela. A garotinha, que viveu durante quatro anos no abrigo, não tinha nada e de repente ganhou muitas coisas. A maioria das roupas e brinquedos chegou até a família doada por amigos, parentes, comunidade da igreja e colegas de trabalho dos pais. Só Barbies dá pra enfileirar e contar 50. Kívia ficou deslumbrada. Para cortar os “pitis” da mocinha, a mãe foi firme. Tirou todas as coisas do guarda-roupa dela, guardou, e restaram apenas 3 mudas de roupa, pijamas, calcinhas e meias. A menina abriu o guarda-roupa quando chegou da escola e levou um susto.

– Cadê minhas roupas? (Perguntava, chorando).

– Você ganhou um monte e fica dando piti, então essas que estão aí são suas, as outras não te pertencem. Se você fizer por merecer, elas vão voltar, se não, vou doar elas. Já que vai ser esse perrengue, então eu estou te ajudando. Eu sou sua mãe. Eu tenho a obrigação de te educar. Aqui não se ganha nada pelo grito.

Kívia captou a mensagem. Na primeira oportunidade, presenteou a mãe com uma cartinha agradecendo.

Obrigada por me educar. Você me ama, porque você me mostra o que é certo e errado.

No início, a estratégia da troca ajudou a estabelecer limites para as crianças. Não comeu, não obedeceu, não escovou os dentes? Então não ganha mesada; não vai na festinha de aniversário do coleguinha. O trunfo da educação dos filhos, contudo, foi o exercício do diálogo. “Sempre demos espaço para eles falarem. Colocamos de castigo, mas queremos saber o que eles acharam dessa nossa postura, assim vamos fazendo eles refletirem com a gente”, coloca o pai. “A gente está ensinando e está aprendendo muito também”.

Os pais Laércio e Brígida Schneider casaram-se em 2011 e, como ele havia passando por um primeiro relacionamento com filhos e era vasectomizado, começaram a pesquisar os diferentes recursos para uma gravidez. A adoção foi o que os tocou. Deram entrada no processo, pensando em adotar uma criança com até cinco anos. Passado o curso de preparação oferecido pela Vara da Infância e Juventude de Londrina, enxergaram de uma outra forma a família que queriam. “A gente tinha a ideia de que (com uma criança mais nova) íamos formar o caráter e não íamos ter certos riscos, mas, no curso, colocaram de forma bem clara o valor da adoção para quem é adotado”, fala Laércio. Uma criança de zero a dez anos, com possibilidade de um irmão, foi o perfil escolhido.

Viajaram para São Miguel do Iguaçu, cidade próxima à Toledo, para buscar os dois irmãos que se encaixavam em seu perfil. Saíram da instituição de abrigamento com uma sacolinha nas mãos. Uma roupinha, uma sandalinha e nada mais. “Tudo o que eles tinham ficou lá, até os irmãos”, reflete o pai. As crianças têm dois irmãos biológicos, que na época já eram adolescentes. O juiz da comarca decidiu dividi-los para que ao menos os menores pudessem ser inseridos em uma família.

– Mãe, quero falar em particular com você. O Isaías quer te chamar de mãe.

O irmão de 13 anos foi passar o Natal e o Ano Novo na casa da família. Brígida e Laércio tomaram o cuidado de deixar muito claro para ele e para as crianças que seria só um passeio de férias, depois ele teria que retornar para o abrigo. A experiência foi transformadora. Carinhoso e prestativo, Isaías encantou o casal, que resolveu dar uma segurada nas contas para que mais um filho coubesse no orçamento. No coração, já estava. Requereram a adoção do menino ao juiz, e Isaías nem precisou voltar para o abrigo.

A adaptação, tanto dos filhos como dos pais, foi mais tranquila com o adolescente do que com as crianças. O único momento de tensão foi quando ele disse não estar feliz. Estava revoltado com as condições do irmão mais velho, Davi, que, tendo completado a maioridade e precisando de cuidados especiais, voltou a morar com a mãe biológica. Isaías sabia que a mãe teve oportunidades, mas não se moveu para tirar os filhos do abrigo. Os pais do coração explicaram que não possuíam estrutura para adotar também o irmão mais velho, mas que, enquanto pais de Isaías, dariam apoio para que ele aproveitasse as oportunidades, estudasse e se capacitasse, podendo um dia conseguir ajudar Davi; buscá-lo se ele quiser. O casal disse, ainda, que prezava pela felicidade de Isaías e que a escolha de ficar ou não seria dele. “A gente falou que se ele quisesse ficar, aqui seria uma nova vida, e que se ele decidisse ir embora, iríamos falar com o juiz e dar um jeito de fazer a vontade dele, mas aí ele não voltaria mais, porque não é uma colônia de férias”.

Quando chego próximo à casa da família, após me perder pelo caminho, Laércio está para fora do portão acenando. Logo na entrada, sou recebida com festa pela cachorrada. Duas poodles e uma vira-lata pretinha magrela. “Até elas são adotadas”, brinca. Foram recolhidas da rua. Brígida está preocupada que elas pulem em mim com as patinhas sujas. E tem jeito? Elas pulam, rodopiam, latem. Sento no sofá da sala e aparece um gato, mais um dos mascotes. O clima é completamente acolhedor. Porta-retratos variados ostentam fotos das crianças. Lindas. Tiago me cumprimenta, tímido, mas muito educado. As sardinhas na bochecha emolduram os olhos bem castanhos. O olhar está fixo num carrinho, mas o ouvido está atento à movimentação ao redor.

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Família Schneider: Laercio, Brigida, Isaias, Kívia e Tiago.
Foto: Cássia Popolin.

Tiago vai com as cachorrinhas para o quarto para que os latidos não atrapalhem a gravação da conversa. Enquanto isso, sua mãe relata pequenos fragmentos da vida das crianças no abrigo que a impressionaram.

Lá eles tomavam medicações fortíssimas pra não trabalhar o emocional. Minha avó tem 86 anos e toma um remédio que eles tomavam. Ela tem Alzheimer e fica muito agitada. O médico fala que é sossega-leão. Quando tá muito agitada, dá isso. É para deixar ela dopada. Então, como era muita criança, acho que eles não queriam ter muito trabalho. É pra dar sonolência. Me falaram que o remédio é antidepressivo e que eles eram sonâmbulos. Eu falei que não ia trazer, que eu ia marcar uma consulta. Se a pediatra fala ‘continua dando’, eu vou. Mas eu não vou dar à toa. Eu cortei. To acompanhando. Eles são muito agitados, à noite querem conversar, falar, andar, mas não é nada que precise tomar remédio. A pediatra disse: ‘Misericórida!’

*

Quando eles chegaram pra nós, o Tiago e a Kívia tinham a boca toda estourada, os dentes, dava até dó de ver, sabe? Eu me assustei! A gente levou no nosso dentista, ele achou que a gente tava exagerando, até que ele mesmo viu. E as crianças falavam ‘Ah, eu achava que era normal’. Para eles aquilo era normal. Teve que arrancar os molares dele.

*

A Kívia tinha necessidade de ficar grudada, principalmente comigo. Beijoqueira. Manhosa. Queria ficar sempre sentada no colo. E é uma coisa que eu não sou, assim, melada sabe? Ela era melada. O Isaías, também, ele é mais necessitado de beijo e abraço toda hora. Ele é grandão assim, mas ele é uma criança, às vezes a gente tá deitado, ele vem e deita no meio. Então, não é que eu não gosto. Eu também não tive isso e to aprendendo com eles. Com qualquer pessoa era assim. Se a Kívia chegasse aqui agora, a primeira coisa que ela ia amar em você é seu cabelo. Porque lá, todas as meninas tinham o cabelo curtíssimo. Tem foto dela ali ó, que ela parece um menino. Então, a gente deixou o cabelinho dela crescer né. Ela é apaixonada por cabelo cumprido. E aí ela já ia chegar, já ia ficar pegando no seu cabelo, já ia grudar no seu pescoço, ficar te beijando. Muito carente. Esses dias tava pensando, acho que ela parou um pouco com isso daí, acho que ela tinha necessidade de se sentir amada. Agora ela beija e abraça, mas não tanto. Chegava a ser irritante. Parece que agora ela tem essa segurança ‘eu sou amada’ né.

Passaram-se dois anos da adoção das crianças e um ano e meio da chegada do filho mais velho, hoje com 15 anos. Isaías escolheu aproveitar as oportunidades e está se empenhando nisso. Já ganhou até tablete no colégio como prêmio de desempenho, através do concurso Aluno Nota 10 realizado pelo Rotary Club de Londrina. Kívia, criativa e desinibida, compôs uma música para futuros pais adotivos. Com a franja presa com tique taque e segurando uma boneca bebê no colo, canta a música em um vídeo, que é destinado a quem tem medo de adotar. Não adotar um bebê como a boneca dela, mas adotar filhos mais velhos. Os meninos mais velhos e meninas precisam também de um lar/ Eu pedi em oração para Deus e ele respondeu, ganhei uma família e fiquei feliz/ Nós somos muito amigos/ Eles também precisam de amor/ Vocês precisam tentar, porque vocês vão conseguir adotar um filho mais velho/ Quem não sabe ainda, precisa ver como é bom.

A família Schneider, cujo único contato com outros casos de adoção era o do vídeo exibido no curso preparatório durante a habilitação, tornou-se modelo. O casal de cabeleireiros foi chamado pela Vara e pelo Trilhas do Afeto, Grupo de Apoio à Adoção de Londrina, para dar seu testemunho. Até a Kívia foi lá na frente falar, do jeitinho dela, que os pais a educaram. Na camisetinha vestida no dia, estavam estampadas as palavras-chave: Adoção Tardia. “Eu coloco as crianças como se fossem benção para a gente em todos os aspectos”, defende o pai. A mãe confirma. “Se eu pudesse voltar atrás, só me arrependo de uma coisa. Eu adotaria os três juntos.”

*Os nomes das crianças e adolescentes abrigados foram substituídos nesta reportagem para proteger sua identidade.

** Esta reportagem foi escrita em agosto de 2015

Matéria produzida originalmente como trabalho acadêmico para o Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, epl.

Editora-assistente para esta versão publicada no site www.edvaldopereiralima.com.br:  Larissa Laviano

Acesse todos os demais capítulos dessa matéria.

Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 1
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 2
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 3
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 4
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 5
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 6
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 7
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 8

 




JL na Veia – “Calle 2” no Ar!

JL na Veia – “Calle 2” no Ar!

Caros:

Criação de dois pós-graduados em JL, Ana Magalhães e Guilherme Soares, e tendo na equipe editorial também  vários outros  pós-graduados JL,   já está no ar, desde hoje, a revista digital “Calle 2” , com foco na América Latina, procurando diminuir também nossa estranheza com relação aos vizinhos.   O estilo narrativo preferencial da publicação é o JL. Faço parte do Conselho Editorial.

Mais info no release anexo.

Parabéns à Ana e Guilherme, assim como a seus sócios empreendedores, e a todos da comunidade JL que estão integrando a equipe editorial! 

Vida longa, “Calle 2!”

www.calle2.com

https://www.facebook.com/revistacalle2/

Abs,

Ed

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A vida que me criou assim

‘A vida que me criou assim’
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Laila Braghero Vicente

Jornalista, pós-graduanda no Curso de Pós-Graduação em JL, epl, turma 2015. Atualmente é repórter do jornal O Semanário, de Rafard (SP), e fotógrafa freelancer. Em 2013, recebeu o prêmio de melhor jornal mural da Expocom Nacional, e melhor projeto multimídia entre os TCCs de Jornalismo da Unimep, em Piracicaba (SP), no 25º Prêmio Losso Netto de Jornalismo.
lailabraghero@gmail.com

A vida que me criou assimSentada em um pedaço de varvito, mais conhecido como pedra de Itu e ex-integrante da antiga calçada, Virginia contempla uma folha caída no chão entre tantas outras no jardim da frente da casa cor-de-rosa. Havia me levado até ali para mostrar o local onde costuma passar quase todas as tardes observando o movimento da Rua General Osório, no Centro de Capivari (SP). “Eu vejo alguém que passa, que olha, que apanha flor. Eles não me veem.”

O casarão é tão antigo quanto a atual proprietária, que chegou à cidade em 1949. Sabe-se que foi comprado pela dona anterior, dona Jovita, em 1908. Já foi menor, porém sempre com a mesma formosura. Tem até livro sobre o lugar – A casa de Capivari –, escrito por toda a família em 2008. Os mais novos na época deixaram suas contribuições em desenhos.

Nesse domingo, 23 de agosto de 2015, com a bengala na mão esquerda, Virginia tenta puxar para si a folha amarela enquanto fala, como se quisesse tirá-la do caminho, protegê-la de algum par de pés calçados e assassinos. Recorda-se do ginásio e de como aquele órgão resumido a clorofila era importante para a professora de Biologia Branca do Canto e Melo, descendente da Marquesa de Santos. Hoje, ela crê que parte das instituições já não dá muita relevância ao jeito lúdico de ensinar.

“A gente vivia procurando folhas de vários tipos. Essa, por exemplo, é bem diferente. Parece uma seta. A gente ia onde tinha jardim pegar folhas para fazer o herbário. Agora tem de todo jeito aí e não vem ninguém buscar. Ninguém se interessa.” Essa professora, conta, também deu a ela aulas de Francês e História. “Ela deu aula em várias épocas. Era muito inteligente. Quando fez concurso para ser professora, havia gente que foi especialmente para assistir a prova oral dela.”

Virginia Bastos de Mattos gosta de falar dos tempos da escola. Integrou a turma de 1925 da Caetano de Campose se formou em Filosofia pela Faculdade de São Bento, ambas em São Paulo. “Era a Escola Normal da Praça, como eles chamavam antigamente. Depois fui à Faculdade de São Bento, que era particular, ali mesmo, bem no Centro, no Largo de São Bento. Tem o colégio e em cima a faculdade.”

Trocava as panelas pelos cadernos desde a infância, quando tinha o sonho de ser jornalista. Mas não foi atrás por causa da mãe, Maria Luiza, que acreditava que as redações não eram ambientes adequados para mulheres. Além disso, as palavras saíam embriagadas das máquinas de escrever, que enfrentavam longas madrugadas e o frio da capital paulista.

Por outro lado, a mãe de Virginia sempre apoiou os estudos da menina e dispensava a ajuda dela na cozinha, já que nunca teve muitos dotes culinários. “Ela falava: ‘tem de estudar, vai’. E minha irmã gostava de ter essa folga para não estudar.” Ela é a mais velha de cinco irmãos e a única viva. Dois deles morreram ainda crianças. “Foi o trauma das nossas vidas.”

“Uma morreu bem pequena e outro morreu com 12 anos. Sofremos tanto. Um menino sadio que teve apendicite supurada.” Dois anos depois, Maria Luiza ainda não tinha superado a perda. “Quando me formei na Escola da Praça tinha uma missa e mamãe não foi. Ela disse: ‘ah, Virginia. Tantos dias para escolher, foram escolher 12 de dezembro?’ Falei: ‘mas não fui eu que escolhi’. Mas mamãe não foi na minha missa”, diz, com a voz meio embargada.

Enquanto conversávamos, o mais novo dos oito filhos de Virginia regava as plantas maltratadas pela falta de um jardineiro. “A gente tinha um, mas eles estão muito careiros, porque são poucos. E também não temos certeza se eles sabem [o que estão fazendo]; vão cortando tudo. Quando meus filhos moravam aqui eles cuidavam muito. Principalmente o Antonio, que gosta de planta.”

Apesar disso, Otavio foi quem tomou a iniciativa naquele dia. O Jean Reno de pele capuccino e educação nitidamente herdada de Virginia, característica comum entre os membros daquela família, arregaçou as longas mangas da camiseta polo listrada de azul marinho, vermelho e branco e botou a mangueira para trabalhar.

Para a mãe, o turismólogo, que não exerce a profissão, “faz um pouco de tudo” no setor administrativo da Secretaria de Esportes da Prefeitura de São Paulo. “A mulher dele trabalha lá”, disse em nossa conversa inicial, três semanas atrás. Valderez, 54, cursou Turismo – o casal se conheceu na faculdade – e, na verdade, se aposentou recentemente.

– A senhora lembra a idade do Otavio?

– Mas parece incrível como não me lembro de nada.

– 55. – respondeu Railda, durante minha primeira visita à professora.

Era manhã de segunda-feira, 10 de agosto, e a cuidadora de idosos varria a casa enquanto eu conversava com Virginia na sala de jantar. Entre palhas e rasteirinhas arrastando pelo assoalho, ficava de ouvido na conversa para acudir a senhora caso ela se perdesse nas memórias. A cada pausa para lembrar o nome de uma das proles, a baiana parava a vassoura e franzia a testa, fitando a mulher por trás. Quando o danado do substantivo próprio voltava à lembrança, ela retomava o serviço.

Tchá, tchá… TCHÁ, TCHÁ. Railda ia e voltava entre um quarto que parecia ser o de Virginia e a sala. Morena, tinha os cabelos castanhos escuros presos com uma presilha branca abaixo do coque, baby look azul marinho e calça jeans com pequenos brilhos nos bolsos de trás. A rasteirinha era bege e abotoava na altura do tornozelo.

Aos 31 anos, está com dona Virginia há três e em Capivari desde 1994, quando os pais vieram da Bahia em busca de emprego. Chega de manhã e passa o dia cuidando da casa, da roupa, da comida, de Virginia. Aos sábados, vai embora após o almoço e folga aos domingos. E não dorme lá. Isso é função de outra cuidadora, Ivani, que foi contratada há cinco meses.

“Ela ficou 40 dias de cama com dengue. Depois disso, os filhos acharam melhor contratar alguém pra ficar à noite. Antes ninguém dormia com ela, porque ela só aceitava eu aqui. Agora está aceitando melhor a outra”, contou. “Mas se perguntar [da dengue], ela vai falar que foram só dois dias.”

Também pudera. A dois meses de completar 100 anos, Virginia tem apenas lapsos de memória quando o tema é mais recente. A pressão arterial é melhor do que a de Railda, reconhece a própria cuidadora, e não toma nenhum remédio. Só algumas vitaminas quando o médico indica. As pernas continuam vistosas como reafirmado dia desses por minha vó, 15 anos mais nova – dona Mariquinha costumava admirar a beleza de Virginia na missa.

Naquela ocasião, eu estava sentada em um sofá de três lugares próximo à porta branca de madeira da entrada. Virginia havia se ajeitado à minha frente, em uma das duas poltronas cinzas, que um dia foram tão rosas quanto a casa e fechavam o círculo de opções de assentos, além de uma cadeira. Suas costas, longe do encosto, eram levemente curvadas e acentuavam o olhar desconfiado que ela me lançava no início do papo.

A meia-calça fio 15 estava coberta das batatas das pernas para cima por um vestido branco com estampa geométrica. Este, por sua vez, se escondia em parte por um casaquinho rosê com meia dúzia de figuras na altura do peito que me lembraram espadas de baralho. A mão direita sobre os joelhos apalpava com cuidado cada dedo da companheira esquerda. Os cabelos, bem branquinhos, foram penteados para trás.

– Deixa eu ficar mais perto pra ouvir bem.

– A senhora quer por o aparelho? – pergunta Railda.

– Hein?

– Quer por o aparelho?

– Não. Ele tá sem pilha.

– Chegue mais perto dela pra ela ouvir direito.

De imediato, salto para um banquinho de madeira semelhante àqueles que a gente repousa o pé para ver tevê. Sentei com o corpo de lado, mas fiquei mais bem colocada à frente de Virginia, de modo que ela me ouvisse melhor e lesse meus lábios com facilidade. Comecei falando sobre o projeto e minha pós-graduação em Jornalismo Literário, mas logo fui interrompida.

“Sabe, eu não quero cortar seu ideal de fazer alguma coisa, mas eu não sou uma pessoa que estou vivendo hoje. Eu já vivi. Eu estou acabando os dias. Eu sou quase centenária.” Sem que eu argumentasse, ela continuou. “Já não tenho mais essa participação entusiasmada. Pode ser uma participação afetiva. Quero bem a cidade, que não é a minha cidade, mas eu quero bem. Nunca morei tanto tempo num lugar só como eu moro em Capivari.”

Notei certa preocupação na fala de Virginia, mas só saberia o motivo minutos mais tarde. Sem mais explicações, contornei sua falta de vontade em falar sobre o agora perguntando sobre seu passado, tão presente ainda hoje. Não tem como falar dessa mulher sem repassar esse século de vida que exala por cada centímetro de seu corpo, compartilhando uma sensação de tranquilidade que só sentindo para saber como é.

Conversamos, então, sobre quando ela se mudou para a Terra dos Poetas e sobre o marido, com quem dividiu os problemas e somou a sabedoria durante 57 anos até ele morrer, em 1993. Nascida em São Paulo no dia 20 de outubro de 1915, se casou com o professor de Filosofia e Francês Carlos Lopes de Mattos, cinco anos mais velho, na capital do Rio de Janeiro. Lá, eles tiveram três filhos, Maria Luiza, Daniel e Carlos Alberto.

De volta à capital paulista, nasceram mais dois: Maria Virginia e Antonio Carlos. Pergunto se Maria Virginia tem acento. “Não. No meu tempo nada tinha acento. Mas você pode por à vontade, porque não é Virginía, é Virgínia, paroxítona.” Já em Capivari, cidade que Carlos escolheu para lecionar após ser aprovado em um concurso público, o casal teve mais três filhos: João Augusto, Maria Augusta e Otavio.

Um engenheiro agrônomo, um técnico agrícola, duas professoras, um juiz, uma bibliotecária, um engenheiro eletrônico e o turismólogo. Daniel, o técnico agrícola, e Carlos Alberto, o juiz, já morreram. “Foi tão rápida a morte do Daniel. Ele andava um pouquinho desequilibrado, fora das regras da vida. Não lembro bem. É um tempo tão obscuro para mim. Meu marido tinha morrido há pouco tempo também e eu estava muito fragilizada. E o Carlos Alberto foi ficando com problemas no estômago e acabou morrendo [em 2004].”

“Hoje eu estou fora do tempo, sabe?”, recomeça, depois de não ter conseguido lembrar em que ano o mais velho se foi. “Tem uma amiga que está bem doente e estou só pensando nela. Não estou muito boa para entrevista.” Ela se referia à sua melhor amiga, Glaucy Quagliato. “Ela está internada na UTI, mas não tem notícia. O médico falou que tem de aguardar, então a gente fica assim preocupada.”

Para descontrair um pouco, pergunto qual o segredo da longevidade de dona Virginia, bem como das pernas tão invejadas por mulheres de sua época e até mais novas. Ao contrário das mil e uma lorotas que vemos nas capas de revistas femininas, me lançou uma resposta que pode agora acabar com as últimas esperanças de muita gente por aí. “É genético.”

Na família por parte de mãe, ela afirma que teve muitas centenárias. “Fui à festa de uma que estava fazendo 103, e outras eu sabia por notícias que viveram mais de 100”, garante. “Mas isso não é mérito da gente, porque não é esforço. Não fiz nada para ter essa idade. A vida que me criou assim.” Apesar de sentir leves dores nas costas vez ou outra, não tem restrição alimentar.

Continua.

A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 1
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 2
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A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 4




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‘A vida que me criou assim’

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Laila Braghero Vicente

 

A casa e ela

Laila 3 virginia bastos de mattos 2Além de professora, Virginia também é escritora, ainda que não goste muito do título, tampouco de ser chamada de autora. Em 1986, ajudou o marido na preparação final do livro sobre o capivariano Rodrigues de Abreu, intitulado Vida, paixão e poesia de Rodrigues Abreu. Dezoito anos depois, coordenou a publicação de A ronda nas ruas: a história nas ruas de Capivari, por meio do Movimento Capivari Solidário. A obra contém dados históricos de Capivari contados a partir dos nomes das primeiras ruas.

E, no mesmo ano, publicou Léo Vaz: o cético e sorridente caipira de Capivari, jornalista que, entre outros periódicos, dedicou mais de 30 anos de sua carreira ao jornal O Estado de S. Paulo, como redator, secretário e, por último, diretor, durante o exílio de Julio de Mesquita Filho. Hoje, Virginia disse que não escreve mais. “Eu escrevia muitas cartas. Tinha muitos parentes. Mas, com a internet e o telefone com mais facilidade fui largando.”

Os encontros do Movimento Capivari Solidário, que eram semanais, quase não ocorrem mais. “Eles estão se espaçando muito”, desde que um dos fundadores e então presidente, Waldemar Thomazine, morreu, no ano passado. “Eu viajava muito. Agora não tenho compromisso nenhum. Eu espero que venham na minha casa. Quase todo fim de semana eu tenho alguém. Eu gosto que venham.”

Embora tenha uma família grande, Virginia mora sozinha. “Eles não têm condições de morar aqui. Tiveram de sair por causa do trabalho, alguns para terminar a faculdade”, justifica. “Uns vêm me ver com mais frequência. Outros são mais difíceis de sair. Todo mundo fica tão cheio de serviço.” Durante a semana, almoça com Railda. “Eu gosto dela”, sorri.

As manhãs sempre passam rápido na casa cor-de-rosa, para a escritora. Suas atividades variam entre acordar não muito cedo, ajudar a “fazer alguma coisa”, tomar um pouco de sol e andar pelo jardim, também com o auxílio da cuidadora. “Quando tem mais gente pra almoçar eu dou ajutório, mas essa moça é muito esperta e de boa vontade. Em geral ela faz.”

Me convida para conhecer a casa. As paredes são repletas de quadros, porta-retratos, espelho, crucifixo, caixinhas com ambientes em miniatura feitos por Maria Luiza e Maria Virginia e muitas lembranças. Os móveis têm um ar provincial e combinam entre si pelo mesmo tom de madeira, escura, de mogno. Acima das nossas cabeças, um lustre muito antigo exibe uma cúpula cor de laranja com o desenho de uma árvore repleta de galhos.

Logo acima do sofá em que eu estava cinco molduras chamam a atenção. Os sogros de Virginia, duas antigas fotos do casal português, fazem companhia a Carlos, que está em outra imagem tirada em Grand-Place, em Bruxelas (Bélgica), 40 anos depois que ele se formou no país. “Ele teve uma morte muito suave. Foi um santo. Uma pessoa muito boa e humilde.”

– Do que ele morreu?

– Fragilidade da vida.

Ao lado, papéis amarronzados destacam fotos mais pretas do que brancas do pai de Virginia, Benedicto, que foi desembargador, e do tio, em cuja casa ela nasceu. “Era cunhado da minha mãe.” A outra fotografia é para se lembrar de Leonardo Van Acker, que foi seu professor de Filosofia. “Eu fui aluna dele e tinha uma grande admiração.”

À minha direita, atrás da mesa principal, uma coleção de pratos antigos. “Todos têm uma história.” Um foi da avó, outro tem a imagem de Dom Quixote, um terceiro estampa a Torre de Pisa, na Itália, presente de Maria Luiza. “Esse azul grande foram os alunos do ginásio que me deram no Dia das Mães. Tem o nome de cada um dos meus filhos. Ainda não tinha o Otavio”, explica, apontando um prato que lembra um mapa.

As amigas pintaram a maior parte dos itens: Meiri, Dirce, Iolanda. Outros a própria Virginia. “Essa também foi a Iolanda”, continua, mostrando uma louça verde com três flores. “Ela tentou camélias, mas é difícil, porque são brancas e não têm centro. E aqui foram os holandeses que estiveram em nossa casa”, diz sobre um pires. “Eram parentes do padre Eusébio e eu os hospedei aqui.”

Em 2008, a professora recebeu da Câmara de Capivari o título de Cidadã Capivariana. Como forma de homenageá-la, os filhos deram a ela a estátua de uma capivara. A peça fica exposta junto ao desenho de um galo em patchwork, também feito por Maria Luiza. “Ela faz trabalhos assim, miudinhos. Esse foi um dos mais recentes que ela fez. É muito bonito.”

Uma porção de livros catalogados depois, chegamos ao “escritorinho”, no fim do corredor, onde os filhos costumavam estudar.

– O que é aqui? – aponto um papel com vários títulos pregado na parede.

– São os livros que eu empresto. Eu marco, porque se não, não vem mais. Eu acho que foi a Guta [Maria Augusta] quem escreveu pra mim.

Imagens de santos produzidas por artistas diferentes, com técnicas diferentes; uma pintura feita por um dos filhos; livros e mais livros; um computador antigo; uma reprodução em mármore da Escola Normal Caetano de Campos; o diploma do marido. “O Carlos não é Lopes. Ele é Alves de Mattos. Eles acham que quem foi transcrever não entendeu”, aponta o nome no papel timbrado.

Antonio Carlos completa: “Quando ele estava no primário não precisava ter documento e talvez ele assinasse certo. Quando ele foi fazer o Serviço Militar, eu tenho a ficha dele, ele assinou na beirada da ficha Alves de Mattos, mas a letra dele era muito apertadinha e dava para entender que era Lopes, então o funcionário do Serviço Militar datilografou Lopes de Mattos”.

Continua.

A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 1
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 2
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 3
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 4




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Laila Braghero Vicente

 

Macarronada

No domingo, os familiares de dona Virginia chegaram quando ainda estávamos no jardim. Otavio parou de molhar as vistosas camélias brancas para tirar a corrente do portão de ferro, também branco. Um dos netos, o analista de sistemas Rafael, 42, filho de Carlos Alberto, chegara com a esposa Roberta, da mesma idade, e com o filho mais novo deles, João Pedro, 13.

LaILA 4 virginia bastos de mattos 4

Ouço três portas batendo e um casal de vozes dizendo “olá”. Me levanto para cumprimentá-los, enquanto Virginia continua sentada na pedra de Itu.

– A senhora quer ir lá?

– Não. Eles vêm aqui.

– Oi, Roberta. Nós estamos aqui.

– Que gostoso, tomando sol. – responde a advogada. Morena de cabelos longos, vestia uma regata branca por dentro de uma saia verde água com flores bordadas, contrastando com as sapatilhas amarelas. – Oi, tudo bem? – diz, vindo ao meu encontro. Nos apresentamos.

– Ela está fazendo uma reportagem. Estou sendo entrevistada. – conta Virginia.

– Ah, é? Ah, que legal. Então estamos atrapalhando.

– Ah, uma jornalista. Que chique, hein, vó? – brinca Rafael. Após cumprimentá-lo também, explico ao trio o motivo da conversa e digo que, no dia da macarronada sagrada, meu objetivo é observar.

– Vixe, hoje vou ter que me comportar.

– Ih, Rafael… – ri Roberta, seguida dos demais. – Deixa eu colocar a sacola lá e a gente volta.

– Acho que nós vamos também – informa Virginia, levantando.

– Mas tá gostoso aqui. A gente pode ficar – defende Rafael.

– Tá porque não é você que tá sentado aqui.

O almoço saiu por volta das 13h. Antes disso, a família trocou um dedo de conversa na sala de jantar. Rafael, com a pele bem mais clara que os demais, barba e bigode, faria o macarrão com molho de tomate. O bate-papo não tirou a concentração de Tatiana, 20, filha de Otavio e Valderez, que, nesse jogo de “ou estuda, ou faz comida”, opta pela primeira atividade e não desgruda do iPad. Ela lembra muito o avô, segundo dona Virginia.

“Nada atrapalha a Tati”, começa, mexendo a cabeça em direção à mesa onde a neta está estudando. “Ela faz o que tem de fazer, a prosa aumenta e ela fica ali. Meu marido também. O Carlos ficava ali. O rádio ficava ligado e ele estudando. E as crianças pulando, correndo. De vez em quando ele entrava na prosa de um e depois continuava. Eu não consigo. Eu preciso me esconder para estudar, se não me distraio com qualquer coisa.”

A matriarca belisca com o palito de dente pedacinhos de pizza trazidos pela nora para forrar o estômago. Estava com o mesmo casaquinho rosê de segunda-feira, desta vez sobre um vestido de listras verticais e pregas. “Meio-dia nós almoçamos”, me garante às 11h30, curvando o corpo para a direita, na minha direção. Estávamos sentadas no sofá de três lugares e os demais faziam nossa volta. A afirmação, porém, veio seguida de muita gargalhada.

– Olha o cozinheiro onde está. Ela falou que meio-dia a gente almoça e você está aí batendo papo. – adverte Roberta, em tom de brincadeira.

– Meio-dia? Então deixa eu ir lá.

Rafael ainda esperou mais uns 15 minutos sugeridos pela esposa e foi. O restante da família foi atrás. Enquanto ele mexia a massa no fogão, João Pedro ralava o queijo, Roberta picava o cheiro-verde e Otavio desenformava o pudim que ele havia feito com leite de caixinha pela primeira vez. Valderez, que já tinha preparado o frango com batatas, passou para o posto de copilota. Todos ajudaram. Até Tati deu folga ao iPad.

A cozinha não é muito grande. De um lado, fogão, pia, geladeira e prateleiras. Do outro, mesa de fórmica, outra geladeira, três peneiras penduradas em uma porta que poderia ser um armário embutido e mais um armário, antigo depósito de lenha. A casa também tinha poço, porque a água encanada não era suficiente. Ele ainda continua lá, com a tampa de cimento, mas vazio. E no banheiro não tinha privada, porque a antiga dona dizia que deixava a casa cheirando mal. Com a mudança, também foram instalados um chuveiro e um bidê. A banheira saiu.

Além disso, a casa tinha apenas três quartos. Para comportar a família, Carlos mandou construir uma casinha no quintal com mais dois dormitórios, embaixo de uma pereira, cujo tronco aberto já apodreceu. “Quando nós chegamos aqui ela já era velha.” Não coincidentemente, a família batizou o local de Domus Piri (Casa da Pera), assim mesmo, em latim. “Meu filho Carlos Alberto fez até uma placa com casca de árvore e uma pera de massinha, mas roubaram a pera. Não sei como. Ou caiu e sumiu na enxurrada. Não sei.”

Ao lado da Domus Piri existe uma extensão do quintal onde vivem, do outro lado do portão de madeira, ao menos sete jabutis. No domingo, Otavio me mostrou um bebê jabuti que nascera naqueles dias. Quando pequeno, eles retiram o animal do bando e cuidam dentro de uma caixa, para assegurar que ele não se perca no meio do mato e receba a alimentação necessária.

Continua.

A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 1
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 2
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 3
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 4