A vida que me criou assim 4

‘A vida que me criou assim’

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Laila Braghero Vicente

 

Doce de abóbora

lAILA 6 virginia bastos de mattosA comida começou a ser degustada após um brinde à saúde e ao jornalismo. Na pauta da refeição, filmes, ciclovias e ciclofaixas, transporte público, bons lugares para apreciar rodízios de pizza, Jedi’s Burger (nova lanchonete temática inspirada no Star Wars), São Paulo. Todos os que estavam na casa naquele dia moram na capital. E, como eles mesmos disseram, se veem mais em Capivari do que por lá. Virginia seguia silenciosa.

Falavam sobre o Templo de Salomão, Eduardo Cunha e os falsos profetas quando a voz suave e meio rouca da senhora rompeu o tilintar dos talheres. Olhando a tigela com doce de abóbora na mesa, feito por ela com a ajuda de Otavio, começou a contar sobre quando passava pela casa de umas amigas com a irmã, depois da escola, e eram convidadas a entrar.

“Era perto de casa. Elas diziam: ‘vem comer doce de abóbora. Vamos entrar pra gente conversar mais um pouco’. Um dia, minha irmã e eu aceitamos e fomos. E tinha doce de abóbora, mas era ruim. A primeira vez nós já achamos. A segunda foi ainda pior. Não passamos mais lá até acabar esse doce. Elas eram amáveis, mas não sabiam fazer”, finaliza, em meio às risadas.

Após o almoço, eu guardava minhas coisas para ir embora quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, o filho de Virginia, Antonio Carlos, 64, pede para falar comigo. A conversa foi breve, mas muito rica. Em poucos minutos, o paulistano, que voltou a morar em São Paulo depois de adulto, resumiu coisas que “tinha certeza que mamãe não ia se lembrar de falar”.

Virginia, que segundo Antonio Carlos é prima da rainha Sílvia da Suécia, levou a vizinha Inezita Barroso à escola durante anos. A cantora sertaneja, que morreu em março deste ano, era dez anos mais nova que a amiga. Também foi colega do ex-governador de São Paulo, Franco Montoro, e de sua esposa Lucy.

Em outubro, mês que a escritora completa seu centenário, disse que os irmãos abrirão a casa cor-de-rosa para o público que quiser cumprimentá-la. A família também planeja repetir uma exposição realizada em 2000, com todos os objetos antigos da matriarca. Depois, haverá ainda uma festa particular em São Paulo, fechando as comemorações.

Desligo o telefone, coloco a mochila nas costas e me dirijo à porta.

– Aparece, viu?

– Você mora onde mesmo? Em Rafard? Não? – pergunta pela terceira vez naquele dia e quinta ao todo.

– Em Capivari. Perto da escola Carreta, no Engenho Velho.

– Ah, sim. No Engenho Velho.

– E você é? Seu nome?

– Laila.

– Laia?

– Laila.

– Laila?

– Isso.

– Você vai a pé?

– Vou. Quero aproveitar para andar um pouco.

– Tchau. Até mais. – continuo.

– Vai com Deus e aparece o dia que você quiser.

– Desculpa incomodar a senhora, viu?

– Não incomoda. A hora que eu não puder eu digo: agora não.

Matéria produzida originalmente como trabalho acadêmico para o Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, epl.

Editora-assistente para esta versão publicada no site www.edvaldopereiralima.com.br:  Cris Ghattas II

Fotos: Laila Braghero

Continua.

A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 1
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 2
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 3
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 4




O Prêmio de Beatriz Jucá

O Prêmio de Beatriz Jucá

Beatriz Jucá, pós-graduada da turma 2013 – São Paulo – do Curso de Pós-Graduação em JL,  acaba de conquistar um prêmio nacional de reportagem com uma série de matérias produzidas para o jornal onde trabalha, “Diário do Nordeste”.

A série, escrita e editada em estilo de JL, incorpora nossa proposta conceitual de “narrativas de transformação”: reportagens que abordam questões difíceis da nossa complicada civilização contemporânea masque vão além da denúncia ou do conteúdo pesado, representativo da parte sombria ou negativa da sociedade e do ser humano; indo além do padrão comum do jornalismo convencional, exploram possibilidades de visão para além desse nível sombrio.

Parabéns merecidíssimos à Beatriz, voz em ascensão da novíssima geração de escritores da vida real deste país, ao jornal, que endossou a opção narrativa da repórter, aos organizadores do prêmio, que souberam reconhecer o valor de uma abordagem diferenciada como esta.

Para ler mais:

http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/mobile/cadernos/cidade/serie-do-diario-e-primeiro-lugar-em-premio-nacional-1.1438049




O NOBEL DE SVETLANA ALEXIEVICH

O NOBEL DE SVETLANA ALEXIEVICH

A outorga do Prêmio Nobel de Literatura 2015 a Svetlana Alexievich, anunciada há pouco, tem um significado histórico para todo o campo do Jornalismo Literário. É a primeira vez que esse reconhecimento de altíssimo prestígio mundial vai para profissional cuja carreira está centrada, essencialmente, na produção de JL. Pouco importa se, a rigor, dêem ao seu trabalho outro nome, como jornalismo narrativo, ou simplesmente jornalismo de boa qualidade. O fato é que Svetlana, desconhecida do público brasileiro por falta de publicações de suas obras por aqui, é, em essência, autora que encarna o espírito central da literatura da realidade e demonstra, em alto e bom som, a universalidade do JL, bem como a fortaleza dos princípios fundamentais que regem sua prática em todas as partes do mundo. É sintómatico, igualmente, que a Academia do Nobel finalmente tenha admitido implicitamente o valor da literatura narrativa de não ficção, ajudando a estimular o olhar ainda tímido e excessivamente reservado de muita gente da área convencional de Letras e Literatura a se abrir para a incorporação dessa excepcional tradição da produção narrativa de histórias reais ao grande escopo cultural do universo literário da civilização contemporânea.

Navegando nesse oceano vasto do JL com seu estilo vigoroso próprio – a voz autoral é uma das marcas dessa tradição -, Svetlana tem colocado em evidência, nas suas obras, as histórias de anônimos ignorados pelo “main stream” das sociedades em que vivem e que formam o mapa geográfico e histórico do seu quadro temático de fundo, o mundo soviético e pós das regiões e povos afetados pelo poder político oriundo de Moscou. Surpreende o leitor trazendo para foco a ignorada e trágica realidade das crianças atropeladas pelo vendaval destruidor da guerra; questões dolorosas das mulheres no mundo em rápida mutação – nem sempre para melhor -; os soldados vítimas da crueza de seu império-patrão; os cidadãos comuns desenraizados brutalmente pelo maior acidente industrial da humanidade – o caso de Chernobyl -, tratados como dores de cabeça indesejáveis por um Estado – lá como aqui e em todas as partes – sempre a serviço de seus próprios interesses bestiais, contra os indivíduos e a dignidade do ser.

A seguir, dois brindes deste Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, epl: traduções livres de dois excertos de obras de Svetlana. Revelam um pouco do propósito narrativo dessa extraordinária, valorosa e destemida escritora da vida real, sinalizam seu modo de trabalho, onde se insere a absorção de recursos da História Oral.

 

 

**

Excerto de “Last Witnesses” (Últimas Testemunhas)

Svetlana Alexievich

Tradução de Edvaldo Pereira Lima

*
Na manhã de 22 de junho de 1941, numa das ruas de Brest, jazia uma menina, de pequeno rabo de cavalo solto e sua boneca.

Muita gente guardou essa imagem. Lembraram-se dela para sempre.

O que é mais querido a nós, do que nossas crianças?

O que é mais querido para qualquer nação?

Para qualquer mãe?

Para qualquer pai?

Mas quem conta quantas crianças são mortas pela guerra, que as mata duas vezes? Mata as que nascem. E mata as que poderiam, as que deveriam ter vindo a esse mundo. Em “Réquiem”, do poeta bielorrusso Anatoli Vertinsky, ouve-se um coro de crianças num campo onde jazem corpos de soldados mortos. As crianças não nascidas gritam e choram nas covas rasas.

A criança que passa pelos horrores da guerra ainda é criança? Quem lhe dá de volta sua infância? Certa vez Dostoievski abordou a felicidade geral em relação ao sofrimento de uma única criança.

Houve milhares assim nos anos1941 a 1945…

Do que se lembram? O que conseguem contar? Porque devem contar! Porque mesmo hoje em dia há bombas explodindo, balas assobiando, mísseis reduzem casas a escombros e poeira e as camas das crianças ardem. Porque mesmo hoje alguns querem guerra total, uma Hiroshima universal, em cujo fogo atômico crianças se evaporariam como gotas d´água, murchariam como flores terríveis.

Podemos perguntar o que há de heroico em crianças de cinco, dez anos de idade passarem por guerra? O que essas crianças podem entender, ver, lembrar?
Muito!
O que lembram de suas mães? De seus pais? Só suas mortes: “Um botão da blusa de mamãe ficou nos pedaços de carvão. E no fogão havia dois pedaços de pão quente” (Anya Tochitskaya – cinco anos). “E quando papai estava sendo despedaçado pelos alsacianos ele gritou: Leve meu filho daqui…Leve meu filho daqui para ele não ver isso” (Sasha Khvalei – sete anos). 

Elas podem dizer também como morreram de fome e medo. Como fugiram para o front, como foram adotadas. Como, até hoje, é difícil perguntar-lhes sobre mamãe.

Hoje, são as últimas testemunhas desses dias trágicos. Depois delas, não há mais ninguém.

Mas são quarenta anos mais velhas que suas memórias. E quando lhes peço para se lembrar não é fácil para elas. Para elas, voltar àquele estado, àquelas sensações concretas da infância, parecia impossível.

Mas uma coisa incrível podia acontecer. Você poderia ver de súbito numa mulher de cabelo embranquecendo uma menininha implorando a um soldado, “Não esconda mamãe num buraco, ela vai acordar e aí vamos passear” (Katya Shepelyevich – quatro anos).

Abençoada seja nossa falta de defesa à memória. O que seríamos sem ela? Um homem sem memória só é capaz de fazer o mal, nada mais que o mal.

Em resposta à pergunta “Quem é então o herói desse livro? ”, eu diria: a infância que foi carbonizada, destruída e morta por bombas, balas, fome, medo e pela orfandade. Para registrar: em casas para crianças na Bielorrússia, em 1945, 26 mil e 900 órfãos foram criados. E mais um dado: cerca de 13 milhões de crianças pereceram na II Guerra Mundial.

Quem pode dizer agora quantas delas eram russas, quantas eram bielorrussas, quantas era polonesas ou francesas? Crianças morreram – cidadãs do mundo.

As crianças da minha Bielorrússia foram salvas por todo o país e criadas por todo o país. No grande coro das crianças eu ouço suas vozes.

Tamara Tomashevich lembra-se até hoje como na casa de crianças em Khvalynsk, no Volga, nenhum dos adultos levantou a voz para as crianças até que o cabelo houvesse crescido após a jornada. E Zhenya Korpachev, evacuado de Minsk para Tashkent, não se esquece da velha usbeque que levou à estação um cobertor para ele e a mãe. O primeiro soldado soviético na Minsk liberada pegou Galya Zabavchik de quatro anos nos braços e a menina o chamou de “papai”. Nella Vershok relembra como os soldados passavam pela aldeia e as crianças olhavam para eles e gritavam, “Nossos papais estão vindo. Nossos papais. ”

As crianças são as melhores pessoas da Terra. Como podemos protege-las nesse atribulado século XX? Como podemos preservar suas almas e suas vidas? E nosso passado e nosso futuro com elas?
Como podemos preservar nosso planeta no qual menininhas deveriam estar dormindo em suas camas e não jogadas mortas na estrada com seus rabos de cavalo soltos? Para que nunca mais a infância seja chamada infância de guerra.

Em nome de tal fé de mulher, como a minha, este livro é escrito!

 

“UMA CAMISA BRANCA BRILHA LONGE NA ESCURIDÃO…’

Yefim Fridland.
Nove anos. Agora, vice-diretor de um complexo industrial na produção de silício. Mora em Minsk.

Não me lembro como criança. A guerra começou e os caprichos da infância se acabaram. Tudo que me lembro da guerra não é de memórias da infância. Sentia-me como adulto. Tinha medo como adulto de que me matassem, eu entendia o que significa a morte, eu fazia trabalho de adulto, pensava como adulto. E ninguém nos tratava como crianças, naquela situação.

O que aconteceu antes da guerra eu esqueci. Só lembro que antes da guerra tinha medo de ficar sozinho em casa, mas depois o medo desapareceu. Já não acreditava mais nos espíritos que mamãe dizia que se escondiam atrás do fogão, e ela tampouco se lembrava deles. Fugindo de Khotimsk numa carroça, mamãe comprou um cesto de maçãs, colocou-o perto de mim e de minha irmã e nós comemos. O bombardeio começou, minha irmãzinha tinha duas maçãs gostosas nas mãos, começamos a brigar por elas, mas ela não me dava nenhuma. Mamãe gritou: “Saiam e se escondam! ”, mas nós dividimos as maçãs. Brigamos até que eu disse para minha irmã, “Dê-me só uma maçã, ou eles vão nos matar e eu nem experimentei”. Ela me deu uma, a melhor. Aí o bombardeio parou. Decidi não comer a maçã da sorte.
Ficamos apavorados quando vimos os mortos. Isso era medo de verdade. Era terrível e incompreensível, porque antes eu achava que só os velhos morriam, e que as crianças só morriam quando envelheciam. Quem instalou essa ideia em mim, de onde tirei tal ideia? Lembro que antes da guerra o avô do meu amigo morreu, mas não me lembro de outras mortes antes da guerra. Quando vi os mortos jogados nas estradas, fiquei com medo, mas mesmo assim eu subia nos ombros da mamãe para ver quem era. Fiquei aterrorizado quando vi as crianças mortas, meu medo era ao mesmo tempo de criança e de adulto. De um lado, como adulto, eu entendia que eles poderiam me matar, mas, por outro, como criança, eu entrei em pânico, como é que eles podem me matar? Onde vai ser?

Viajávamos na carroça e à nossa frente estava o gado. De papai – até a guerra ele era o diretor da seção de gado em Khotimsk -, nós sabíamos que aquelas vacas não eram comuns, mas de raça, que custavam muito dinheiro, no estrangeiro. Lembro que papai não conseguia explicar quanto custavam – “muito dinheiro” – até que ele deu o exemplo de que cada vaca valia um tanque. “Vale um tanque” queria dizer um bocado de grana. As pessoas cuidavam das vacas.

Como cresci na família de um especialista em gado, eu adorava os animais. Após o bombardeio seguinte, fugimos sem a carroça. Aí caminhei na frente do gado, amarrando-me ao touro, Vaska. Ele tinha um elo de corrente no nariz, uma corda passava no elo e eu amarrei a ponta da corda em mim. As vacas custaram a se acostumar ao bombardeio, elas eram preguiçosas, não estavam acostumadas com os roupões de frio que colocamos nelas, os passos eram trôpegos, ficaram terrivelmente cansadas. Depois de cada ataque era muito difícil juntá-las. Mas se o touro caminhasse, então elas o seguiam e o touro só obedecia a mim.

À noite minha mãe lavava minha camisa branca em algum lugar e de manhã o Primeiro Tenente Turchin, que comandava a linha de carroças, gritava, “Levantem-se”, eu vestia a camisa, pegava o touro e seguia em frente. Sim, eu me lembro que todo o tempo eu usava minha camisa branca. No escuro, brilhava à distância, todos podiam me ver. Eu dormia no touro, sob as patas dianteiras, era mais quente assim. Vaska nunca se levantava primeiro, sempre esperava até que eu me levantasse. Ele sabia que perto dele tinha uma criança e que ele podia machucar aquela criança. Eu deitava nele e nunca me preocupava.
Fomos a pé para Tola. Tinha sobrado pouca gente, as tetas das vacas estavam inchadas. Uma vaca, as tetas doendo, parou perto e olhou para mim. Eu tinha câimbras nas mãos: num dia a gente tirava leite de quinze, vinte vacas. Ainda me lembro de uma vaca deitada na estrada com uma perna quebrada, leite pingando das tetas azuladas. Olhava para as pessoas e parecia estar chorando. Os soldados viram isso, pegaram as submetralhadoras e se preparam para atirar. Eu pedi: “Esperem um minuto”.

Fui lá e aliviei o leite da vaca, para o chão. A vaca lambeu meu ombro, agradecida. “Tudo bem”, levantei-me. “Agora atirem”. Mas eu próprio corri para longe, não queria ver aquilo.

Em Tutu soubemos que todas as vacas de raça que estávamos trazendo iriam para a fábrica de processamento de carne; não havia nenhum outro lugar para ir. Os alemães estavam se aproximando da cidade. Vesti minha camisa branca, fui dizer adeus a Vaska. O touro respirou pesado no meu rosto.

No começo de1945 estávamos voltando para casa. Estávamos nos aproximando de Orsha, eu estava à janela. Senti que mamãe estava de pé, atrás de mim. Abri a janela. Mamãe disse: “Você reconhece o cheiro dos nossos pastos? ” Raramente choro, mas comecei a mugir. Durante a fuga eu até sonhava com o corte do capim dos pastos, como os ajuntávamos em pequenos bandos, e como o feno cheirava quando um pouco seco. Eu achava que o cheiro do capim dos nossos pastos não existia em nenhum outro lugar. No Dia da Vitória, nosso vizinho, tio Kolya, correu para a rua e começou a dar tiros para o alto.

Os menininhos o cercaram:

“Tio Kolya, dá prá mim!”

“Tio Kolya, dá prá mim! ”

Ele deu o rifle para todos eles. Pela primeira vez na vida dei um tiro de rifle também…

***

Excerto de”Voices of Chernobyl” (Vozes de Chernobyl)

Svetlana Alexievich

Tradução de Edvaldo Pereira Lima

Foi assim no começo. Não apenas perdemos uma cidade, perdemos nossas vidas. Saímos no terceiro dia. O reator estava em chamas. Lembro-me de um amigo meu dizer, “cheira a reator”. Era um cheiro indescritível. Mas os jornais já estavam escrevendo sobre isso. Fizeram de Chernobyl uma casa de horrores, mas na verdade fizeram dela uma caricatura, apenas. Vou contar o que é meu, de verdade. Minha verdade.

Foi assim: Eles anunciaram no rádio que a gente não podia levar os gatos. Assim, nós colocamos nossa gata na mala. Mas ela não queria ir, saiu de lá. Arranhou todo o mundo. Ninguém pode levar seus pertences! Certo, não vou levar todas minhas coisas, levarei apenas uma coisa. Só uma! Preciso arrancar minha porta do apartamento e levar. Não posso deixar a porta. Vou cobrir o buraco com papelão. Nossa porta – é nosso talismã, uma relíquia de família. Meu pai foi velado na porta. Não sei de quem é essa tradição, não parece ser assim em nenhum outro lugar, mas minha mãe me disse que o defunto deve ser colocado na porta de sua casa. Ele fica lá até trazerem o caixão. Sentei-me ao lado do meu pai a noite toda, ele foi colocado na porta. A casa ficou aberta. A noite toda. E essa porta tem umas marquinhas nela. Sou eu crescendo. Está marcado lá. Primeiro grau, segundo grau. Sétimo. Antes do exército. E depois disso: como meu filho cresceu. E minha filha. Minha vida inteira está escrita nessa porta. Como é que eu possa deixa-la?




Dez Anos do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário

Dez Anos do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário

Dez Anos do Curso de Pos-Graduacao em Jornalismo Literario

O evento de formatura em 19 de setembro de 2015 da turma 2014 do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, em São Paulo, marcou um feito modesto, mas historicamente significativo: foi o décimo ano consecutivo de conclusão de curso.

O Curso aconteceu primeiro em Campinas, em 2005, depois consolidou-se em São Paulo, sendo realizado também simultaneamente, em alguns anos, em Porto Alegre, Curitiba, Goiânia e Brasília.

A ideia de realizou do Curso partiu do professor Celso Falaschi, que foi um de seus dirigentes durante o período em que o programa esteve administrado pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário, extinta em 2013.   O diretor pedagógico do Curso desde o início, Edvaldo Pereira Lima, continuou o programa, a partir de 2014 administrado por sua empresa, epl, sempre em parceria institucional com a Faculdade Vicentina, de Curitiba, credenciada para atuação nacional.   O corpo docente é praticamente o mesmo, desde o início, assim como a grade curricular, salvo pequenas alterações de percurso.

Na foto   de Fernando de Santis – ele próprio pós graduado em JL, em turma anterior -, os professores Ben-Hur Demeneck, Alex Criado, Celso Falaschi, Edvaldo Pereira Lima e Fábio Gumieiro – da Faculdade Vicentina -, assim como o paraninfo da turma, Ivan Marsiglia – autor de “A Poeira dos Outros”,  publicado pela Editora Arquipélago, de Porto Alegre-, editor por um bom tempo do caderno “Aliás” do jornal O Estado de S. Paulo.

A seguir, a fala do orador da turma, Bruno de Abreu Bataglin, e do padrinho da turma, Ivan Marsiglia.

Bruno de Abreu Bataglin:

Estamos aqui reunidos para encerrar um outro capítulo de nossas vidas. A ideia de encerramento, às vezes, soa dura, pesada. Triste até. Mas não neste caso. No aqui e agora, o encerramento nada mais é que uma missão cumprida com completo êxito.

Mais do que os textos que escrevemos, o importante foram as amizades construídas, as experiências compartilhadas e, acima disso tudo ainda, estão as histórias que contamos.

Contar histórias. Desde que a espécie humana habita este planeta, contar histórias é uma atividade tão comum quanto respirar. Desde a arte rupestre, passando pela escrita cuneiforme e chegando ao alfabeto, tudo foi criado a utilizado com um único intuito: contar uma história.

E contar histórias é algo tão inerente ao ser humano que é impossível conhecer alguém que não tenha uma coisa sequer para contar. Relatar é viver. A memória é a vida em si. Elas quase se confundem.

Um livro que te fez chorar. Um filme que te deixou com o coração apertado. Um relato tão fiel que fez você lamentar o fato de não estar presente naquele local, naquele instante.

São tantos exemplos. Que levante a mão quem nunca se emocionou com uma história. Eu, me lembro bem, lia histórias assustadoras à noite para sentir ainda mais frio na barriga e me recordo disso até hoje. Porque é esse poder que as histórias têm.

Aqui, neste recinto, temos contadores de histórias ainda mais qualificados. Nas histórias, ficção e realidade se misturam. Mas contar a vida real é uma tarefa das mais difíceis, porém é também das mais prazerosas e gratificantes. E é isso que somos capazes de fazer.

Seja por biografias, perfis ou até pelas famigeradas “reportagens temáticas”, não vamos parar de partilhar grandes histórias. Mais uma delas, inclusive, está sendo escrita agora mesmo. E você sequer parou ainda para pensar nisso, não é mesmo?

ESCREVAM SUAS HISTÓRIAS!


Ivan Marsiglia:

Antes de qualquer coisa, eu gostaria de agradecer ao convite, que me foi encaminhado pelo Edvaldo Pereira Lima, para ser padrinho e paraninfo informal da turma de 2014 da Pós-graduação em Jornalismo Literário. É uma honra e um prazer para mim, especialmente nesta data em que o curso chega ao seu décimo ano consecutivo. E um feito que, por si só, diz muito sobre a resiliência e a permanência desse gênero, que alguns também chamam de jornalismo narrativo ou, simplesmente, como até prefiro, de grande reportagem – num momento em que a sobrevivência do próprio jornalismo no mundo de hoje é posta em questão.

Parei para pensar sobre o que eu poderia dizer a vocês em um momento como este, de crises dentro de crises, que não se prendesse à velha cantilena sobre a pressa e a falta de tempo das pessoas no mundo de hoje. Pensei que a gente pudesse discutir aqui, independentemente dos nossos gostos pessoais (que levaram vocês a fazer esse curso e a mim próprio a orientar a minha carreira nessa direção), se o Jornalismo Literário está ou não “saindo de moda”. Será que ele foi uma forma jornalística, ou mesmo um gênero literário, datado? Uma manifestação cultural que despontou nos anos 1940, com Lilian Ross e John Hersey (e Joel Silveira no Brasil), teve seu auge nas décadas de 1960 e 1970 com a geração do “new journalism”, de Gay Talese, Truman Capote, Tom Wolfe e Hunter Thompson, e que não tem mais lugar na velocidade frenética do mundo de hoje?

Então eu imaginei que, uma década atrás, quando o curso do Edvaldo começou, se alguém me dissesse que o principal produto cultural contemporâneo seriam séries de TV, séries às quais as pessoas – esses mesmos apressados cidadãos modernos – se aferrariam dias e noites em claro, até atravessarem 7, 8 temporadas de 10 episódios cada, trocando o bar e a balada, chegando exaustos no trabalho, deixando até de transar com seus namorados e namoradas, eu não acreditaria. 

Pois é, surpresa: as pessoas têm tempo. Especialmente quando se vêem fisgadas por uma narrativa envolvente e bem construída. Por isso – por uma boa história – elas trocam tudo. 

A última série de TV que eu assisti, e imagino que muitos aqui também viram, foi dirigida por um brasileiro na Netflix. Narcos, do José Padilha, sobre o chefão do tráfico colombiano Pablo Escobar, emplacou também trilha sonora do Rodrigo Amarante e Wagner Moura como protagonista – numa atuação espetacular, que mereceu uma única e provinciana crítica por conta de seu “sotaque”. Mas não é por isso que estou citando Narcos. É que a série começa com uma frase muito interessante, alusiva ao escritor Gabriel García Márquez, pronunciada pelo policial do DEA Steve Murphy, narrador da história: “Há uma razão para o realismo mágico ter surgido na Colômbia”. Cito, aqui, uma explicação dada pelo próprio Padilha, numa entrevista à imprensa alemã:

“Eu sempre fui fã do Gabriel García Márquez. Essa inserção de elementos que, teoricamente, são irreais ou mágicos numa narrativa real sempre me interessou. E, para mim, isso é algo que existe na história e na política da América Latina em geral. Tem coisas que só acontecem aqui. A trajetória do Pablo Escobar, de fato, tem essa dimensão difícil de acreditar. Se você imaginar que um narcotraficante contratou um grupo de esquerda – o M19 – para invadir o Palácio da Justiça, destruir provas contra ele, sequestrar juízes… é uma coisa de maluco!”

Ou que o traficante derrubou uma aeronave da Avianca com mais de cem pessoas a bordo na tentativa de matar um candidato à presidência que o desafiava. Então o Padilha explica uma opção que fez em Narcos: “Por isso que eu usei material de arquivo na série: se eu não contasse a história por material de arquivo, as pessoas não iriam acreditar.” 

Eu achei fascinante a reflexão que essa ideia traz sobre os elementos de ficção e de não-ficção que compõem uma boa história. Sobre como a história de Pablo Escobar é tão fantástica e inverossímil que necessita do apoio de elementos documentais para funcionar numa série… de ficção! E não só pelo fato de o próprio Gabriel García Márquez ter sido, antes de escritor, um repórter apaixonado. Mas quando levamos em conta o quanto o Jornalismo Literário já foi acusado pelo jornalismo tradicional de fugir aos fatos e “inventar coisas” essa ideia fica ainda mais interessante. Aliás, ainda hoje esse tipo de acusação continua: outro dia mesmo assisti a uma palestra do Ruy Castro, para mim um dos maiores expoentes do Jornalismo Literário brasileiro, em que ele esculhambou o Gay Talese por considerá-lo “um grande enganador”. 

A questão é que os “idiotas da objetividade” no jornalismo (pra citar Nelson Rodrigues, um autor caro ao Ruy) parecem querer negar que diante dos fatos há sempre um observador. E que o olhar de quem observa, o olhar do sujeito que narra, é sempre “subjetivo”. A própria memória é subjetiva. Isso não significa inventar ou enfeitar os fatos (“perfumar a flor”, como criticava João Cabral de Mello Neto) – mas que a forma como eles são contados faz toda a diferença. A maneira como a narrativa é organizada, se ela é fluida, se é esteticamente bela, é fundamental ao ofício do contador de histórias que, afinal, também é o do jornalista. 

Em um ensaio muito bonito publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, o jornalista e escritor Humberto Werneck (que foi meu primeiro professor no jornalismo, numa redação de Playboy em 1993) ensina que “seria bom que os jornalistas, mesmo os que não têm religião, tomassem Sheerazade para sua padroeira. Ela mesma, a moça que ao longo de mil e uma noites entreteve o sultão Chariar não apenas com suas histórias mas também – ou sobretudo, desconfio – com a maneira sedutora como as narrava”.

É verdade que a gente vive em um mundo cada vez mais acelerado, em que ninguém se olha, as pessoas mediam suas relações por celulares ou redes sociais. E é um mundo em que, como diz meu ex-colega de Estadão, Sérgio Augusto, expoente do Pasquim nos anos 70, “Os jornais viraram verdadeiras ruínas romanas: só sobraram as colunas”. É verdade também que vivemos em uma cultura em que as imagens ganharam grande força e predomínio sobre o texto, a palavra escrita. Outro dia o site Sensacionalista – por sinal, uma inovação interessante da cultura digital, um site de humor e de reflexões que é colaborativo, escrito pelos próprios internautas – produziu uma ótima manchete: “Empresa demite todos os jornalistas e lança jornal para colorir”.

Apesar disso tudo – e por causa mesmo disso tudo – é um respiro quando a gente pega para ler uma boa e longa reportagem na piauí, uma biografia de 500 páginas do Ruy Castro ou do Fernando Morais – que ninguém se lembra, mas são sempre best sellers, sucessos absolutos de venda – ou um texto de jornalismo literário como a da colega de vocês, Beatriz Jucá, da turma de 2013, que ficou entre os finalistas do Prêmio Esso este ano. 

Ali, no meio dessa correria cotidiana – quase sempre usada como pretexto nas redações para combater o texto longo, descritivo ou autoral – é que a gente precisa mais ainda da contemplação, da experiência humana palpável, de “perder tempo” com o outro. De um encontro do leitor não apenas com os fatos relatados, mas com o universo do repórter que narra.

Nos meus dias mais otimistas, eu penso que assim como o mundo do fast food gerou o movimento slow food, de retomada do prazer e do tempo à mesa, a gente pode pensar na fome do leitor de hoje por um “slow journalism”, para ser degustado sem pressa. Da reportagem que se ocupe menos do “furo” – que, afinal, atualmente não dura mais que poucos minutos – pelo tempo necessário para se narrar como se deve tanto os grandes quanto os pequenos acontecimentos do mundo.




Andréa Ascensão e Sua Narrativa de Transformação Vencedora do Prêmio Shift

Andréa Ascensão e Sua Narrativa de Transformação Vencedora do Prêmio Shift

Andréa Ascenção, escritora da vida real de enorme talento ascendente, pós-graduada no Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, é vencedora de um segundo prêmio importante, após sua formatura, com trabalhos originalmente produzidos para o Curso. Ao prêmio nacional de JL conquistado em Manaus em 2014 soma-se agora o prêmio Shift de Agentes Transformadores. Fiel ao conceito de “narrativas de transformação”, Andréa produziu uma ótima matéria-retrato sobre a Praça da Sé, em São Paulo. Acesso pela fan page do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, epl.

https://www.facebook.com/EPL.JL