JORNALISMO EM MUTAÇÃO

Desde minha Tese de Doutorado na USP em 1991, tenho insistido ao longo da carreira acadêmica e da produção independente como escritor e jornalista, no alerta quanto ao efeito psíquico negativo da maior parte da produção de conteúdos dos meios de comunicação de massa, especialmente o jornalismo. Aplica-se igualmente aos novos meios digitais.

 

Tenho insistido em mostrar a outra possibilidade, criando instrumentos para isso e praticando, como minhas propostas conceituais das “narrativas de transformação” e do Jornalismo Literário Avançado.

 

Insisto em que o jornalismo precisa se atualizar urgentemente, incorporando à sua prática novos paradigmas em ascensão nas fronteiras de vanguarda das ciências e do conhecimento. Modelos mentais que estão revolucionando nossa visão da realidade, de como a co-construimos, consciente ou inconscientemente, e de como podemos, comunicadores, contribuir para o salto de consciência vital e necessário, evidente no momento atual dessa crise global sem precedentes do coronavírus.

 

Felizmente, nos anos mais recentes, têm surgido iniciativas que caminham nessa direção, alimentando um primeiro passo fundamental nessa transformação: a mudança de eixo do propósito-guia do jornalismo. As propostas do jornalismo de soluções e do jornalismo construtivo ou positivo, nos Estados Unidos e na Europa, são amostras dessa tendência crescente.

 

Há poucos dias, Andrea Botelho, psicóloga e escritora a quem tive a satisfação de orientar numa Tese de Doutorado na USP, compartilhou um outro caso sugestivo: a fala do jornalista holandês Charles Groenhuijsen para o portal BrightVibes, criado exatamente para contribuir com a sociedade de um modo muito mais construtivo do que o padrão clássico do jornalismo de achar que sua única função válida é ser o fiscal da sociedade, sem avaliar os efeitos deletérios de quando exagera unilateralmente nesse ponto.

 

Aqui vai uma tradução livre minha dos pontos principais da fala de Charles, gravada num depoimento ao BrightVibes há dois anos, creio. Fala plenamente pertinente a esse momento histórico do mundo semi paralisado por uma pandemia de efeitos catastróficos mas profundamente transformadores.

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“Notícia boa é notícia ruim”. Essa é a mensagem que a maioria dos jornalistas nos dá. Mas o veterano jornalista Charles Groenhuijsen, de mais de 40 anos de carreira, acredita que isso é um erro trágico e revela por que há razão para otimismo.

 

Charles Groenhuijsen, jornalista há mais de quatro décadas, acredita que é hora de entendermos que o jornalismo é como um espelho. Esperamos olhar para ele e vermos a realidade, mas o que vemos não é isso. O espelho do jornalismo é embaçado. É sempre o lado negativo da vida. Groenhuijsen trabalha duro para corrigir esse erro e, como jornalista, prefere oferecer uma outra perspectiva da realidade.

 

“SOU OTIMISTA PORQUE EU OLHO OS FATOS… E VEJO O INACREDITÁVEL DO QUE NÓS JÁ REALIZAMOS.

 

O que vejo na tevê todo o tempo, porém, é muito barulho. Notícias urgentes de última hora. Prefiro centrar-me nas revoluções silenciosas, que a longo prazo são extremamente importantes. Sou otimista porque eu olho os fatos. Pense na diminuição da pobreza extrema. É o que nós realizamos nos últimos 25, 30 anos inacreditáveis… mais do que 100.000 pessoas saem da pobreza extrema diariamente.”

 

Groenhuijsen desafia-nos a observar a mortalidade infantil. Diminuiu pela metade, desde 1990. Pense na longevidade média da população. Em 1960, o tempo médio de vida era 52,6 anos. Hoje é 72 anos. Pense na a saúde média no mundo. Isso melhorou tremendamente. “Um volume inacreditável de progresso. E as pessoas desconhecem. O jornalismo dá as notícias urgentes todo o tempo, mas ignora essas revoluções silenciosas.”

 

“Às vezes eu comparo o jornalismo com o ato de você criar filhos. Nós criamos os filhos procurando despertar neles o lado positivo. Imagine um pai ficar o tempo todo corrigindo a criança, dizendo que ela está fazendo o errado. Se essa é a única mensagem que temos para as nossas crianças, elas vão crescer como pessoas miseráveis, vamos formar pessoas negativas, povos raivosos. Mas é exatamente assim que nós, jornalistas, tratamos o mundo. Porque nós dizemos ao mundo, isso aqui é horrível. Oh, e amanhã será mais horrível ainda, com as nossas matérias com as matérias dos refugiados e dos imigrantes e dos crimes. A consequência dessa atitude negativa é que as pessoas olham o mundo de uma maneira muito negativa.

 

Muito frequentemente, isso lança medo na multidão. Torna as pessoas assustadas e irritadiças. Isso torna o jornalismo não apenas negativo, mas muito mais, pois provoca consequências enormes para a sociedade e para as escolhas políticas.

 

A diferença básica que eu tenho com muitos dos meus colegas é que eles tendem a amplificar o mau material no mundo. Eu faço o oposto, amplifico o lado bom; sem esquecer o mau, naturalmente. Eu digo para meus colegas, nós somos jornalistas, temos que passar uma imagem equilibrada, mas o que estamos passando é desequilibrado.

 

Há grandes desafios, naturalmente. Temas difíceis. Pense na crise climática, na crise da imigração, na desigualdade social. Mas ao mesmo tempo, o progresso em muitos campos tem sido inaudito quando se trata dos direitos humanos básicos; a educação, a orientação sexual para as mulheres, há tantas áreas que têm tido melhorias notáveis, mas muita gente não se dá conta disso.

 

Se você fica longe do foco negativo e fica mais próximo do positivo, de uma maneira mais construtiva de olhar as coisas, penso que o jornalismo poderia ajudar o mundo a ser melhor. O problema é que os jornalistas não consideram ser sua tarefa tornar o mundo melhor. Essa é uma diferença básica de opinião que tenho com muitos dos meus colegas. Sim, nós estamos aqui para fazer um mundo melhor.

 

As pessoas devem compreender que ser pessimista sobre o nosso mundo é uma escolha, assim como o otimismo é uma escolha, também. Essa escolha do otimismo nos dá mais energia. E eventualmente, com esse lado amável da energia, podemos tornar o mundo muito melhor para nós próprios, nossos filhos, nossos netos”.